




         Antes que o dia amanhea
                       "Northern Sunset"
                         Penny Jordan


- Saia j daqui, este quarto  meu, exclusivamente meu! - Catherine exclamou, com uma voz exasperada. Como se no bastasse ter que passar a noite num hotel em Lerwick, 
ainda aparecia aquele estranho dizendo que ia dormir com ela, na apertada cama de solteiro. E o pior  que estava inteiramente nua sob as cobertas! Mas Brett Simons, 
o desconhecido que havia invadido seu quarto, no parecia se importar com isso. Riu, arrogante, e deitou ao lado dela. No dia seguinte, quando acordou e no o viu, 
Catherine pensou que tinha sonhado. Mal sabia ela que Brett reapareceria para perturb-la. Afinal, ele precisava conquist-la para levar adiante seus planos diablicos.

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                                        CAPITULO I


Magnus estava certo, Catherine concluiu, olhando desanimada a nvoa que se arrastava traioeiramente em direo ao porto. Naquela manh, prevendo a bruma, o irmo 
mais velho a aconselhou a no sair de Falia. Mas o Natal estava chegando. Com a morte dos pais, tambm tinha morrido a alegria que enchia a casa naquela data. Embora 
fossem muito pobres Catherine no queria deixar de pelo menos tentar comemorar a ocasio. Por isso tinha ido a Lerwick.
Magnus disse que ela nunca ia conseguir manobrar o barco de pesca, j velho e arruinado. Catherine riu. Conhecia muito bem as guas de Falia e das outras ilhas Shetland 
e seria capaz de naveg-las at mesmo dormindo, apesar das plataformas de explorao de petrleo ancoradas em alto-mar.
Petrleo! Como odiava a palavra e tudo o que ela implicava! Seus olhos ficaram molhados de lgrimas ao pensar em Magnus, o irmo forte e corajoso, a quem adorava 
como um heri durante a adolescncia. Magnus tinha assumido o lugar dos pais quando eles morreram afogados num acidente no mar.
Olhou detidamente para o mar e certificou-se de que as compras estavam no barco. Muitas daquelas coisas tinham sido gentilmente oferecidas pelos Cullon, que viviam 
em Falia desde a primeira invaso das ilhas pelos escandinavos. Catherine sabia que eles sempre lhe davam presentes quando fazia compras, no por piedade, mas por 
uma autntica solidariedade. As pessoas que habitavam essas ilhas compreendiam profundamente as dificuldades da famlia devido  incapacidade mental de Magnus.
As guas que rodeavam as Shetland eram ricas em peixes, mas tambm traioeiras, os ventos fortes sopravam constantemente, provocando tempestades. Dificilmente uma 
famlia das Shetland no teria uma histria triste para contar sobre vidas perdidas ou mutiladas...
No seria possvel partir de Lerwick naquela noite, constatou Catherine. Depois de verificar se o barco estava bem preso, deixou o porto. Ela era mida, de corpo 
bem feito, o cabelo loiro at o ombro, herana daqueles ancestrais escandinavas que reclamaram para si as ilhas castigadas pela ventania. Os habitantes das Shetland 
no falavam a antiga lngua nrdica, mas na tradio e na viso de mundo aproximavam-se mais dos parentes escandinavos do que dos vizinhos escoceses.
Apenas nos olhos de Catherine se notava o sangue cltico da me, a ruiva insinuante que o pai conheceu na universidade, em Edimburgo, e com quem depois se casaria. 
Eram olhos cinzentos, da cor dos mares de Falia; conforme a luz mudando do cinza mais suave ao violeta mais profundo. Muitos homens tinham se sentido atrado pela 
beleza delicada de Catherine durante os poucos anos em que viveu em Londres, cursando biblioteconomia, mas depois do acidente de Magnus ela abandonou de vez aquela 
vida e voltou para casa.
Parou para olhar uma vitrine de loja deslumbrantemente iluminada e decorada, os olhos molhados de lgrimas. Mac tinha lhe garantido que no havia nada de errado 
com o fsico de Magnus e que ele se recuperaria, um dia. Dizia que deviam agradecer aos cus por ele no ter morrido nem ficado seriamente ferido. Sim, mas o homem 
que agora se sentava fixando o vazio, fechado na casa imensa e arruinada de Falia, no era o irmo que conhecera na juventude. Magnus era cheio de vida, bem disposto, 
provocador. Lembrou dele voltando de Orna para casa naquela noite terrvel, quando souberam que os pais tinham morrido afogados perto de Bressay.
Jamais esqueceria os cuidados e a compreenso dele. Tinha sido uma espcie de rocha salvadora em meio  tempestade de tristeza que ameaava arras-la. Agora era 
a vez de ela ser fone o suficiente para servi-lhe de rocha, para no abandon-lo.
Magnus tinha mergulhado numa doentia e destruidora depresso depois de um acidente que sofreu. Vivia fechado em casa, nem a janela abria. No fosse Catherine, se 
enterraria vivo. Era ela quem o obrigava a comer e se cuidar, porque ele no possua nimo nem vontade.
Magnus havia recebido, depois do acidente, uma proposta de trabalho administrativo. Mas preferiu isolar-se em Falia, onde ficaria longe do mundo e se dedicaria a 
apagar todo o passado.
Passar a noite em Lerwick implicava numa despesa que Catherine gostaria de ter evitado. Sem o salrio de Magnus, a nica fonte de renda com que contavam era uma 
penso mnima. Mesmo sendo qualificada, no encontraria emprego de bibliotecria em Falia; os arrendatrios sobreviviam da pesca e Catherine teve de aprender a fechar 
os olhos para a deteriorao da sua casa, que um dia fora luxuosa.
Parou em frente ao hotel em que costumava se hospedar quando vinha de Londres. Magnus sempre dava um jeito de conseguir frias, naquelas ocasies, para poderem ficar 
juntos. Naquela poca, era atencioso, generoso, aprovava todas as decises que ela tomava e pagava seus estudos. Embora ele fosse apenas sete anos mais velho, assumiu 
a responsabilidade sobre ela depois da morte dos pais.
Catherine abriu a bolsa, verificou quanto tinha de dinheiro e entrou no hotel. Como na maioria dos hotis de Lerwick, os donos tratavam seus, hspedes como se fossem 
da famlia.
A garota atrs do balco de recepo reconheceu Catherine e a saudou com um sorriso.
- Como vai seu irmo? Ele teve muita sorte, no  mesmo?
Se ficar paralisado num nico lugar, enquanto o mundo em torno gira e se agita em meio a chamas e gritos de agonia, podia ser considerada sorte, ento sim, Magnus 
tinha tido muita sorte. Mas Catherine entendeu o que a moa quis dizer e sorriu.
- Tem algum quarto vago? - perguntou.
- Sinto muito, srta. Peterson, mas no temos. Como pode ver, hoje  tarde chegou um grupo de trabalhadores das plataformas de petrleo de Aberdeen. Eles s vo embora 
quando o tempo melhorar.
Os habitantes das ilhas Shetland tinham aprendido a viver com os invasores; tinham aprendido a aceit-los indo e vindo, num eterno movimento entre a imensa instalao 
petrolfera de Sullon e a terra firme.
- Mas tenho uma sugesto - disse a recepcionista. - Se a senhorita quiser, posso pedir a algum deles para ceder o quarto e ficar com um colega.  Duvido que gostem 
da idia,  mas tenho certeza que no vo recusar. Vou mandar desocupar um quarto e depois os aviso. No esto no hotel, agora.
A moa registrou o nome de Catherine no lugar de um outro. Ela queria tanto aquele quarto, que nem se preocupou com o que aquele homem desconhecido acharia dessa 
invaso.
 Catherine  no  tinha  levado  roupas  para  trocar,   mas   na  farmcia prxima dali poderia comprar uma escova de dente e outras coisas de que precisasse. Lavaria 
a calcinha antes de dormir e de manh j estaria seca.
Agradeceu a recepcionista com um sorriso e saiu. J estava escurecendo quando chegou na farmcia. Tambm o farmacutico perguntou-lhe sobre Magnus e Catherine deu 
as notcias. Depois tirou da bolsa a receita de um sonfero prescrito por Mac. Desde o acidente, as noites do irmo eram terrveis: ou ele dormia atormentado por 
pesadelos ou sofria uma insnia cruel.
Catherine saiu da farmcia, vendo na imaginao os cenrios descritos pelo irmo, nas cartas: os interminveis campos de petrleo; os reservatrios das fazendas; 
as areias quentes do deserto...
Magnus gostava de ser gelogo e do emprego na United Oil. Mas, para a companhia, ele no passava de mais um empregado, dispensvel e sem nenhuma importncia.
Uma raiva impotente surgiu nos olhos de Catherine. Magnus tinha feito parte daquele mundo do petrleo, o mundo dos homens duros e fortes, mas tudo acabou no Oriente 
Mdio, numa noite de terror e de sofrimento, quando o cu negro tornou-se avermelhado com chamas vorazes.
Os executivos engomados e protegidos que sentavam atrs de suas mesas, em suas salas confortveis, a milhares de milhas dali, nada haviam feito para livrar seus 
homens do perigo da guerra entre rabes e israelenses. As companhias de petrleo eram um alvo extremamente visado por guerrilheiros dos dois lados. Os trabalhadores 
viviam perseguidos por bombas e tiros de metralhadoras. Um dia Magnus foi atingido por uma bala perdida, que s o pegou de raspo. Ele no sofreu nenhuma leso fsico 
maior, mas parou de andar, abandonando-se em meio s chamas na esperana de que o descobrissem e o salvassem.
O dio de Catherine pelos chefes indiferentes foi crescendo ms aps ms,  medida que assistia  luta de Magnus para vencer o medo e a depresso que pareciam enraizar-se 
no fundo de sua alma.
Era principalmente a conscincia da extenso daquele medo que o atormentava dia e noite, apesar dos esforos de Catherine e de Mac para ajud-lo. Se a United Oil 
tivesse se preocupado um pouco mais com os empregados e fosse menos vida de petrleo, Magnus no estaria escondido em Falia, angustiado por saber que nunca mais 
voltaria quele mundo.
Os trabalhadores do petrleo no tinham medo de nada, dizia Magnus. Catherine procurava ajud-lo. Gostaria de poder mostrar-lhe que todos conheciam o medo e que 
a ele s restava aceit-lo para se recuperar completamente.
O vestbulo do hotel estava cheio, quando Catherine voltou. Um grupo de homens conversava junto ao bar. Altos, vestido com roupas de brim gasta e jaquetas de couro 
rudes, alardeavam a profisso como se fizesse questo de ser ouvidos. Catherine tentou ignor-los, sem esconder o desprezo que sentia. Odiava-os, sim, mesmo que 
no tivesse nenhuma lgica para isso!
Um ruivo, sentado, acompanhou Catherine com os olhos at a recepo. Ela devolveu um olhar frio, mas percebeu que ele comentava alguma coisa com o companheiro em 
p. Este era alto e forte e tinha os cabelos loiros escondidos debaixo de um bon. Olhou-a de cima a baixo, com ar de quem est mais acostumado a dar ordens do que 
receb-las. Catherine sentiu-se incomodada com ele, pois no era nada simptico e no disfarava o ar de superioridade. Alm do mais, detestava ser objeto de comentrios! 
O ruivo passeou o olhar diretamente pelos seios de Catherine, marcados na blusa de l.
Que diabo estariam falando? Perguntou-se parada em frente ao balco da recepo. Desde que tinha chegado  ilha, nunca teve contato nenhum com o pessoal do petrleo, 
mas sabia, atravs dos rendeiros, que eram homens bons e que as moas do lugar encontravam timos namorados entre eles. Mas aqueles olhares no eram de admirao. 
Pelo contrrio, pareciam zombar dela!
Mesmo depois do jantar, quando pensava ter esquecido o homem alto e forte, percebeu que ainda sentia a presena perturbadora dele. A conversa no bar havia aumentado. 
Eles se divertiam e pareciam ter a inteno de continuar se divertindo. Assim, em vez de voltar l, Catherine preferiu subir para o quarto.
O dono do hotel, que estava atrs do balco, cumprimentou-a como se fosse um velho amigo. Ela pediu a chave e perguntou pela previso do tempo para a manh do dia 
seguinte. Como esperava, o dia estaria bom.
- Em Falia no existe essa baguna, no , srta. Peterson?  - perguntou Richard Nicholson, apontando para o bar.
- No. Felizmente! - Catherine falou duro, dirigindo o olhar para o grupo, no bar.
-- No ligue, senhorita. So boa gente, no fundo. Bagunceiros, sim, mas  natural que queiram se divertir, depois de tanto trabalho. - Fez uma pausa. - Como vai 
Magnus?
- Melhor - respondeu, sem querer dar mais detalhes. - Bom, vou subir para o quarto. Tenho que levantar muito cedo amanh.
Trocaram mais algumas poucas palavras e, quando o telefone tocou, Catherine aproveitou para escapar.
O quarto tinha apenas uma cama de solteiro, uns mveis velhos e uma pia num canto. Refez mentalmente o longo caminho que levava ao banheiro e lembrou do perigo que 
seria encontrar algum trabalhador. Mas foi e voltou a salvo.
Ainda era cedo para deitar e lamentou ter deixado o pacote de livros no barco. Mas tinha um jornal na bolsa. Leu todas as notcias locais, com uma certa nostalgia.
Quando criana, a perspectiva de visitar Lerwick era sempre motivo de alegria. Seus pais nunca foram exatamente ricos, mas viviam bem. S aps a morte deles  que 
as aes, de onde vinha a maior parte da renda da famlia, caram de valor. Naturalmente, recebiam pequenas quantias dos arrendatrios das terras de Falia, mas eram 
insuficientes; uma simples gota de gua do oceano, comparada com os gastos da casa grande.
O barulho que vinha do salo em vez de diminuir aumentava cada vez mais. Depois de trancar a porta e pr a chave no toucador, Catherine tirou a roupa, lavou a calcinha 
e a meia, e as colocou sobre o aquecedor.
Felizmente o quarto era quente, mesmo assim sentiu muito frio at se acostumar com o lenol na  pele nua. No via a hora de amanhecer e poder voltar para o conforto 
da casa. Seria detestvel passar mais uma noite em Lerwick.
Estava quase dormindo quando ouviu um rudo. Abriu os olhos e atravs da escurido procurou descobrir de onde tinha vindo e o que podia ser. Foi ento que viu a 
sua frente, prximo da porta, um vulto de p.
- Ora, ora, ora, que surpresa! - zombou uma voz grossa. - Mas acho que voc entrou no quarto errado. Alex est l embaixo, no saguo.
- O que pensa que est fazendo? - perguntou Catherine, sentando na cama e puxando a coberta at o pescoo. O homem se aproximava perigosamente.  medida que foi 
chegando perto, ela viu que era o estranho alto de cabelos loiros agora sem o bon, mas com o mesmo ar de arrogncia displicente.
- Eu  que pergunto isso! Como entrou aqui? O que est fazendo deitada na minha cama? Quando quero uma mulher, eu mesmo a procuro.
Catherine enrubesceu.   Mas ento ele estava achando que ela o esperava?
- Como disse, Alex est dormindo l embaixo no saguo. Dou-lhe dois minutos para sair da minha cama e pular para a dele, seno vou chamar o gerente.
- No posso...  Estou nua! - Imediatamente se arrependeu do que disse. Desse jeito tinha se colocado numa posio ainda mais frgil diante desse brutamontes.   Decidiu 
que o  melhor  era  obrig-lo  a  chamar o gerente, mesmo. Claro que aquele quarto no era dele! Mas como havia conseguido a chave?
Como se lesse seus pensamentos, o homem respondeu imediatamente sua pergunta.
- Eu devia estar preparado para alguma coisa assim - comeou ele. - Procuraram minha chave, no a encontraram e acabaram me dando uma cpia.   Mas de uma coisa tenho 
certeza, mocinha: eu mesmo conquisto as mulheres que desejo! Agora se vista e suma daqui!
Afastou-se da cama, os braos cruzados sobre o peito largo e forte, assentado em quadris bem desenhados, as pernas compridas  musculosas. Estava decidido a ganhar 
aquele combate.
-  Suma   voc!   -   explodiu   Catherine,   ofegante,   a   voz   saindo comprimida, ignorando o olhar que anunciava perigo. - O quarto  meu! Se no acredita, 
desa e pergunte na recepo. O hotel estava cheio e me disseram que iam pedir a algum para dividir um outro quarto.
- Muito plausvel sua explicao - zombou. - Como posso saber que est falando a.verdade? Voc bem que poderia estar por aqui atrs de algum dinheiro fcil!
Catherine sentiu a respirao presa e, no estivesse nua debaixo da coberta, sairia da cama como um foguete para expulsar aquele sujeito insolente.
- Mas que atrevido! Ento voc entra no meu quarto, faz acusaes graves, me manda sair e ameaa chamar o gerente? Pois eu  que vou cham-lo, fique sabendo! Ele 
vai expulsar voc!
- Seja minha convidada a sair - provocou ele, segurando a porta aberta.
- Saia. Vou me vestir e saio imediatamente!
- Deix-la escapar para ir apanhar outro trouxa? No, no, no... Bem que eu disse que devia ter fisgado o Alex. Ele  muito mais tratvel do que eu!
Catherine respirou profundamente.    Provavelmente, Alex era o grandalho ruivo.
- E eu j lhe disse que est enganado. Este quarto  meu! Voc  o intruso!
Estava quase chorando; os olhos esverdeados do homem se adoaram, perdendo a expresso impiedosa e zombeteira.
- Vamos falar claro. Se no  dessas mocinhas que circulam por a atrs de uma brincadeira lucrativa, quem  voc? O que est fazendo aqui?
- Sou Catherine Peterson. Se no acredita v perguntar ao dono do hotel - respondeu, irritada por ter de continuar com aquela espcie de interrogatrio. - No fosse 
essa bruma, eu j estaria em minha casa em Falia h muito tempo.
-  Falia? Voc mora l?
Ela fez que sim com a cabea. O rosto dele ficou repentinamente srio, mas no fez nenhum comentrio sobre a ilha.
- Muito  bem,   Catherine   Peterson.   Vamos supor que voc  esteja dizendo a verdade. Como v, temos um dilema que precisa ser resolvido.
- O que sugere? Ns dois queremos esta cama!
Ele pouco se importou em se desculpar pelos insultos, pensou Catherine. Aquele homem rude jamais admitiria que estava errado!
-  No existe nenhum dilema - afirmou secamente. - Sugiro que voc desa e confirme com a recepo. L eles vo dizer com quem dividir um outro quarto.
Os olhos dele brilharam na penumbra, fazendo Catherine se encolher. Era evidente que detestava receber ordens. Ainda mais de uma mulher!
-  Oh no - respondeu ele, com a voz branda. - Este quarto  meu, registrado com o meu nome, e no vou desistir dele para ficar com o Alex.
Enquanto falava, foi at a porta, fechou-a com firmeza e trancou-a a chave. Depois, foi at a cama e tirou a jaqueta de couro. Estarrecida Catherine teve a certeza 
do que ele ia fazer...
- Voc no vai... Dormir aqui!?
- Por que no? Afinal, o quarto  meu, e se tenho que dividir com algum prefiro dividi-lo com voc! Naturalmente, no  obrigada a ficar!
- E desabotoou calmamente a camisa.
Catherine olhou desesperada para a porta, culpando-se por ter tido a idia de lavar a roupa e dormir nua. Pelo menos, agora poderia sair debaixo da coberta, vestir-se 
e dormir no saguo. Teria sido mil vezes melhor do que partilhar uma cama de solteiro com aquele sujeito!
- O que  que voc tem? - perguntou, ao v-la imvel.
- Se tivesse um mnimo de decncia, deixaria o quarto agora mesmo.
- Pronunciou bem cada palavra, procurando observar a reao dele.
- Homens como eu so indecentes, no so? Pelo menos aos seus olhos. Ou no?
Catherine mexeu-se na cama. O luar iluminava seu cabelo de leve, tomando-o prateado.
- Ento  voc! - o homem exclamou, reconhecendo-a. - Eu a vi no bar...
- Tambm o vi - retrucou. -- E no gosto de gente como voc. Detesto homens que fazem o seu trabalho! Detesto o seu trabalho! - Por um segundo, perdeu completamente 
o medo. - Pode ficar tranqilo... Eu no o tocaria nem por todo o petrleo do Mar do Norte!
Ele tirava a camisa lentamente, com o olhar fixo nela, como que exigindo que ela contemplasse seu peito coberto de plos.
-  mesmo?
- No posso ficar aqui com voc - ela protestou, esquecendo a deciso de no ceder em hiptese alguma. - Vou me vestir e...
-... E chamar o gerente para ele me tirar do meu quarto, alm de me acusar de tentar seduzi-la! De jeito nenhum! Voc vai ficar aqui, sim! A no ser que seja bastante 
corajosa para sair da da cama e pegar a chave!
Ele sabia que ela no tinha coragem, Catherine pensou, enquanto o homem lhe voltava as costas e ia at a pia. Se ao menos o estranho sasse para tomar banho, ela 
fugiria dali, mas era evidente que pretendia castig-la e no ia lhe dar essa chance.   Pelo clima de tenso, era impossvel que a desejasse.   Na verdade, percebeu 
que ele   estava consciente o tempo todo de sua inferioridade e a provocaria ao mximo!
Catherine, em estado de choque, ouviu-o tirar as calas e o rudo da porta do guarda-roupa sendo aberta.
- Pelo jeito - disse  ele -,  quem  arrumou  o quarto para  voc   esqueceu de tirar minhas coisas... Ou est mentindo?
- No...
Dessa vez, Catherine no fez o menor esforo para esconder o pnico, indo para a beirada e enrolando-se na coberta ao sentir o peso do corpo dele sobre a cama. O 
corao comeou a martelar desesperadamente e tudo lhe pareceu um pesadelo. O estranho companheiro aproximou-se e tocou-lhe o queixo com dedos firmes.'
- Alguma coisa me diz que voc nunca fez isso antes - disse, pela primeira vez, com humor. - Ser que estou certo?
Mais do que pensa, respondeu Catherine para si mesma. Nunca tinha dormido com um homem,  ainda mais com um desconhecido!  Apesar disso, orgulhava-se de ser uma mulher 
moderna!
A presena daquele corpo a dominava absolutamente. Catherine estava plenamente consciente da nudez mscula que, a qualquer momento, poderia tocar sua prpria nudez.
- Est to apavorada que no consegue responder?
Seus msculos tensos deram a resposta que ela no podia dar com palavras.
- Voc est em boas mos - garantiu ele com seriedade. - No vou violent-la. Tudo o que quero  dormir. Trabalhamos duro durante cinco dias com um tempo terrvel 
e, acredite-me, mesmo que eu quisesse, no conseguiria reunir foras para ensin-la como fazer amor.
- No preciso que ningum me ensine! - disse. Logo ficou irritada com ela mesma. Era absurdo que estivesse conversando aquele tipo de coisa com um estranho, e ainda 
por cima na mesma cama!
Ele riu, estremecendo o corpo forte e nu, e Catherine sentiu um estranho desejo de saber mais a respeito do homem que encarava com naturalidade aquele encontro incomum.
- No me toque! - ordenou, firme, esquivando-se da mo que ainda lhe segurava o queixo.
Mas ele segurou seu pulso com fora e a puxou. Ela ento sentiu o corpo que vinha imaginando e adivinhando na penumbra. Devagar, ele foi se aproximando e tocou levemente 
sua boca. Ela no era uma mulher experiente, s o suficiente para saber que naquele beijo no havia desejo. Era firme, competente, mas totalmente desapaixonado, 
assim como no sentia na pele que se encostava  sua nenhuma sensualidade.
- Est vendo? - o homem disse, se afastando dela. - Agora que demonstrei a    inutilidade    do   seu    medo,    podemos    dormir   juntos. Desapontada?
Ela no respondeu, simplesmente o olhou com repugnncia. Como era possvel tamanha humilhao? No entanto, bem no fundo, sabia que ele lhe provocava alguma emoo, 
vaga demais para receber qualquer nome...
- Durma -  ele  falou  como  se   dirigisse  a   uma  criana  que merecesse ' cuidados     especiais.     Para sua surpresa, seus olhos automaticamente foram fechando 
e o sono veio de repente.
Quando acordou estava sozinha na cama. No havia nenhum sinal do companheiro no quarto. Com as pernas tremula, Catherine correu para a porta. Trancou-a, deixando 
a chave na fechadura, lavou-se e vestiu-se com rapidez, procurando esquecer a noite anterior.
Ele tinha sido ousado demais em pensar que realmente estava  espera dele! Vestiu os jeans distraidamente e quebrou a unha. Resmungando, procurou uma lixa na bolsa. 
Quando se perde a pacincia, ns mesmos somos os prejudicados, dizia-lhe a me. Era a pura verdade, pensou.
S quando desceu a escada e encontrou a sala de jantar vazia foi que Catherine percebeu o quanto aquele homem a tinha perturbado. Pelo menos ele teve o bom senso 
de desaparecer logo cedo, pensou, tomando o caf. Mas isso no justificava seu comportamento e no o isentava de culpa.
Ficou vermelha ao lembrar do toque frio dos lbios dele nos seus. De novo o corao comeou a bater descompassado e imediatamente tentou esquecer o incidente. Agora 
estava livre e o melhor em continuar a viver como se nada tivesse acontecido.
Com o cabelo preso, parecia uma garotinha de dezesseis anos, nem de longe demonstrando os vinte e dois que tinha. Enquanto caminhava em direo ao porto, o corpo 
s vezes negava-se a obedec-la, tomado por uma sensao de letargia. Deu um sorriso de alvio e satisfao ao lembrar da segurana que, no sonho que teve naquela 
angustiada noite, os braos de Magnus tinham lhe dado.


                                  CAPTULO II


Catherine colocou uma capa impermevel e partiu para Falia, numa viagem de quatro horas debaixo do vento gelado e mido de inverno. A cabine aberta no oferecia 
nenhuma proteo, mas, concentrada na manobra do barco que cortava em dois as ondas agitadas, ela mal percebia o frio. Aquela espcie de batalha que enfrentava naqueles 
mares lhe dava uma deliciosa sensao de liberdade, tirava-lhe as preocupaes e os temores.
Finalmente, avistou as rochas de arenito avermelhadas de Falia e comeou a levar o barco para dentro da menor das duas enseadas que formavam o porto natural. A enseada 
maior era um verdadeiro fiorde glacial, explicou-lhe Magnus certa vez, e suas paredes lisas e vermelhas escorregavam infinitamente para dentro daquelas guas profundas.
Algumas casas amontoavam-se desordenadamente na praia, como se buscasse proteo da ventania. Enquanto Catherine tentava prender o barco, a porta de uma das casinhas 
abriu e apareceu um pescador rude que, sorridente, correu para ajud-la.
- Obrigada,  Findlay - Catherine agradeceu  arquejando,  quando o homem amarrou a corda e estendeu a mo para ajud-la a saltar em terra firme.
-  Vou ajudar voc a pr essas coisas no jipe - ele ofereceu, pegando uma das caixas enormes sem fazer o menor esforo.
O pai de Catherine teria a mesma idade dele se ainda estivesse vivo. Com ele  que Magnus e ela aprenderam a navegar e a pescar. Findlay j fazia parte da famlia.
No demorou quase nada para colocarem as compras no jipe. A aldeia mergulhava na calma e no silncio, os pescadores estavam quase todos em alto-mar. Recusando o 
convite para uma xcara de ch, Catherine subiu no carro e ligou o motor.
A estrada de terra subia para alm da aldeia e atravessava terrenos que no vero viviam forrados de flores silvestres, mas agora no inverno, sem nenhum arbusto, 
formavam uma paisagem triste. Aqui e ali a terra aparecia exposta, porque os aldees costumavam arrancar a turfa para us-la no fogo, pois no existia carvo ou 
madeira nas ilhas. Falia possua bons pastos e, durante o vero, vacas e carneiros gordos cobriam seus campos, vagando e comendo tranqilamente.
A estrada passava pela parte mais alta da ilha, onde havia os restos de uma torre que h muito tempo pertenceu a um castelo construdo na poca turbulenta do conde 
Patrick. A casa grande, onde Catherine e o irmo moravam, dava para um pequeno brao de mar, e os jardins eram protegidos do vento por uma grande colina situada 
atrs dela. O jipe atravessou os enormes portes de ferro importados da Inglaterra, agora enferrujados e abandonados. Alis, tudo ali eslava abandonado, at mesmo 
a vegetao e as plantas do jardim.
A biblioteca, que dava para frente da casa era o lugar mais freqentado pelos irmos. As salas de estar, antes to arrumadas e aconchegantes, estavam fechadas, com 
os mveis cobertos de p e as pinturas das paredes pedindo reparos. Catherine aos poucos precisou se acostumar com o aspecto de abandono geral. No tinha mesmo outro 
jeito seno ficar l. Precisava cuidar do irmo, ento o melhor  que se adaptasse, e rpido.
Magnus estava olhando pela janela, certamente  espera dela. Contente por v-lo, Catherine saiu rapidamente do jipe e pegou um pequeno pacote. Magnus abriu-lhe a 
porta e um co perdigueiro saltou alegremente para receb-la.
Ao beijar Magnus no rosto, Catherine automaticamente comparou o aspecto do irmo com o do homem que havia invadido o quarto do hotel. Magnus tinha 29 anos e a blusa 
de l grossa e larga cobria o corpo que antes fora forte e cheio de energia. Os cabelos eram lisos e loiros como os de Catherine, os olhos azuis e profundos, mas 
sem nenhum sinal de alegria.    Magnus parecia experimentar uma dor e um sofrimento constantes. Ele nunca lhe falava sobre o acidente, porque queria proteg-la, 
dar-lhe segurana. Mas, para ela, era necessrio que ele percebesse, de uma vez por todas, que tinha crescido e era uma mulher feita.
Ele a acompanhou pelo saguo de piso de pedras at a cozinha e Catherine ps o pacote sobre a mesa de madeira, suspirando de alvio.
- Comprou tudo o que queria? - perguntou Magnus, examinando o pacote com curiosidade.
-- Tudo o que pude - respondeu, com uma careta de desagrado. --As coisas esto muito caras em Lerwick... Imagino que por causa das exploraes de petrleo.
Catherine falou aquelas palavras com raiva. Magnus j tinha lhe pedido que no alimentasse esse dio, porque, afinal, a indstria de petrleo os cercava. Mas no 
adiantava, ela continuava ressentida.
- Escute - comeou ele - agradeo sua lealdade, mas o que aconteceu comigo foi um acidente, pura e simplesmente. No faz sentido voc culpar o petrleo por causa 
disso, muito menos sustentar um dio por tudo o que se relacione a ele.
Catherine apertou os dedos contra as palmas das mos. Parecia-lhe impossvel que Magnus aceitasse tranqilamente o que aconteceu.
- Mas vamos deixar essas coisas para depois.  Venha comigo at a biblioteca. Quero lhe mostrar uma coisa - ele disse.
Intrigada, deixou-se conduzir pelo irmo at a biblioteca. As chamas da imensa lareira ardiam vivamente e Catherine afundou agradecida na poltrona de couro, as mos 
estendidas para o fogo.
- Voc no tem aproveitado seu tempo, Cat - Magnus   falou brandamente.  -- No devia abandonar seus  estudos.  E meio absurdo passar o resto da sua vida aqui em 
Falia s para me fazer companhia.
- No vejo por qu - argumentou. - Afinal de contas, metade da ilha  minha e voc no tem o direito de me pedir para ir embora.
- Talvez no, mas isso no  vida para uma jovem como voc. Tomou-lhe a mo, viu a unha quebrada e examinou a pele maltratada.
- Meu Deus do cu! Cat tenho sido muito egosta, mas prometo a voc que tudo vai mudar.
- Magnus... Est querendo dizer que vai voltar a trabalhar? - Os olhos de Catherine brilharam.
- No, no posso fazer isso. Quero dizer, faria o trabalho rotineiro, mas cedo ou tarde acabaria me comprometendo com uma situao com a qual no conseguiria lidar. 
Cedo ou tarde a vida de algum estaria em perigo e eu no teria condies de ajudar. Eu nunca seria um verdadeiro gelogo.
- Estranho - murmurou Catherine, no querendo que ele percebesse seu desapontamento.   - Sempre achei que ser gelogo  era  procurar minerais.
- Tem a ver com isso, mas em geral em partes do mundo distantes e perigosas -- ele insistiu.  - E'naquelas condies  preciso que um colega confie no outro... Qual 
o homem sensato confiaria em mim agora, Catherine?
Magnus tinha falado num tom de voz to amargo, que Catherine sentiu vontade de chorar.
- Oh, Magnus, voc no sabe que...
- Sei, sim... Tenho pensado nisso em todos esses ltimos meses. Est acabado, Cat. Estou acabado como gelogo, o que no significa que tudo acabou para mim. Ontem 
 tarde, depois que voc partiu, recebi isto aqui.
Catherine ento viu o envelope, endereado aos proprietrios da ilha da Falia. Depois de ler e reler, a carta ficou plida.
- Magnus, no podemos concordar com isso! Um terminal petrolfero em Falia? Eles esto loucos!
-  No, necessariamente - contestou Magnus.
Uma certa vivacidade na voz dele chamou a ateno de Catherine. Desde que voltou do hospital e durante os longos meses seguintes, ele parecia no se interessar por 
coisa alguma, muito menos por petrleo.
- Venha ver isso aqui   -   ele   pediu,   abrindo   uma   gaveta   da escrivaninha e pegando um mapa da ilha que ele prprio tinha desenhado na Universidade. - 
Aqui fica Falia, e aqui as enseadas. Lembra que uma vez expliquei como essas enseadas se formaram durante a era glacial e como eram fantasticamente profundas?
Catherine fez que sim com a cabea.
- Bom voc viu como o terminal petrolfero da enseada de SuIIon foi bem-sucedido... - Magnus continuou. - A companhia est planejando algo mais modesto para esta 
regio, uma base de apoio.
- Mas isso levaria Falia  runa.
Catherine no acreditava no que estava ouvindo.  Ser que Magnus estaria a favor daquele plano?
-  Venha comigo.
Pegando-a pela mo, o irmo levou-a at o saguo e escancarou a porta dupla da sala de estar. O estuque estava manchado de mofo, os mveis cobertos com lenis empoeirados, 
todo o cmodo invadido por um cheiro  desagradvel   de   umidade.   Em silncio, Catherine olhou para Magnus, perguntando-se por que a tinha levado at ali.
- Est vendo?    Autorizando-os a construir aqui o terminal, receberamos um dinheiro que serviria para reformar a casa e deix-la como era  antes.   Poderamos 
comprar um gerador novo, em  vez  de ficarmos rezando para este no parar de funcionar. E voc... Voc poderia voltar a estudar em Londres!
Pousou as mos sobre os ombros dela.
- Sei qual  a sua opinio sobre a indstria de petrleo, Cat, mas  tolice arruinar sua vida por causa dela. - Fez uma pausa e foi com ela at a janela. - Pense 
na nossa gente e no que a mudana traria de benefcio.  Eles mal conseguem sobreviver!  E os filhos deles,  quando crescerem,  iro embora.  Honestamente, Catherine, 
voc quer que esta ilha fique deserta como as outras? Deserta de gente?
- E voc, honestamente, quer vender o que herdou de seus pais? E para um terminal de petrleo que ser instalado na sua porta? Seria o fim de Falia, Magnus!
Era difcil acreditar que ele estava falando srio. Eram pobres, sim, mas de uma maneira ou de outra conseguiam viver. No sabiam por quanto tempo, era verdade. 
Lembrou com que rapidez o pouco dinheiro que .levou para Lerwick desapareceu; mais uma vez estavam dependendo dos rendeiros para obterem leite e verduras, e todos 
eles tambm eram pobres. Seria egosmo de sua parte desejar conservar Falia do jeito que estava? Sentia um dio enorme no corao. Para onde quer que fosse, encontrava 
sempre a mesma coisa: petrleo. No fosse o petrleo, Magnus seria um homem saudvel e no precisariam enfrentar aquela ameaa... a ameaa... a ameaa de ver Falia 
completamente violentada!
- Concorda com a proposta deles?
Catherine perguntou com palavras, mas os olhos pediam que ele respondesse no. Por um momento, o rosto de Magnus serenou.
-- Acho que pelo menos deveramos autoriz-los a fazer algumas exploraes... Em nome dos ilhus. No temos o direito de negar-lhes essa oportunidade.  E mesmo que 
a companhia insista em ir alm, o prprio governo impediria o estrago da ilha. Alm disso, muita gua ainda vai correr:  possvel que os gelogos que eles vo mandar 
considerem a ilha inaproveitvel.
- Gelogo? Oh, Magnus, por que voc no oferece seus servios? Tenho certeza de que...
- No!
A  exclamao   seca   desmanchou   todo  o  entusiasmo  de  Catherine, destruindo junto todas suas novas esperanas.
- Posso achar esse terminal importante para Falia, mas no espere de mim nenhum interesse profissional. J disse, Catherine, no tenho mais as qualidades que a profisso 
exige.  Pesquisar a enseada quer dizer que algum ter que mergulhar   naquelas   guas,    examinar   as    rochas submersas, contando apenas com uma equipe de 
apoio em terra firme. Acha que,  depois do que aconteceu comigo no Golfo,  algum ainda confiar em mim?
- Mas, Magnus, no aconteceu nada! Voc desmaiou e...
- E quando voltei a mim estava vivo, enquanto meus colegas e meus amigos estavam agonizando!   Eu no fiz absolutamente   nada   para ajud-los!
- No tinha condies de ajudar - argumentou, sem saber se era bom ou mal discutir este episdio que ele procurava esquecer.
- Paralisado pelo medo.    Pelo medo,    Cat   -   disse   Magnus, emocionado. - Enquanto isso, aqueles homens se enfiavam no meio do tiroteio.
- No estava paralisado pelo medo - insistiu Catherine. - Mac me explicou tudo. O golpe que voc recebeu...
- Ora, pare de tentar me facilitar s coisas! Como eu gostaria de ter morrido l! Voc no imagina o inferno que tem sido a minha vida desde ento!
Deixou-se cair numa cadeira, as mos na cabea, os ombros tremendo.
- Olhe para mim, Cat - ordenou. -No sou mais um homem...
Seu olhar desesperado despertou nela todos os instintos de proteo. No, Magnus no era covarde, porque era corajoso o bastante para suportar a presena daqueles 
homens que no sentiam por ele mais que desprezo. Ele os queria ali na ilha, no retiro dele, e para o benefcio dos outros.
Catherine   estava   tirando   os   pezinhos   do   forno  quando   ouviu  o helicptero sobrevoando a casa. Dez minutos mais tarde, bateram  porta e ela foi atender.
-  Mac! Mas que surpresa boa! - Feliz, abraou o escocs de cabelos grisalhos. Ele, todo sorridente, j foi sentindo o cheiro de po quente.
- Precisei ir at um dos poos e pedi aos rapazes que me trouxessem para c, em vez de voltar, a Lerwick.
- Magnus vai ficar contente de v-lo aqui.
Catherine cortou um dos pezinhos, passou manteiga e deu a Mac.
- Vai dar indigesto, fui eu que fiz - brincou, indo ver a chaleira velha e amassada.
-  Pois est uma delcia! Vai valer a pena ter indigesto. - Fez uma pausa. - Alguma novidade por aqui? Magnus est passando bem?
-  Ele saiu para dar um passeio.
Catherine ainda no tinha se acostumado com os passeios solitrios do irmo, tendo como companheiro apenas o cachorro.
- Mac, ontem chegou uma carta. Querem construir um terminal aqui em Falia.
-  E voc est contra a ideia1? Ela fez que sim com a cabea.
-  O que Magnus diz a respeito?
Catherine contou tudo, acrescentando que estava surpresa pelo irmo  ter aprovado o projeto desde o comeo.
-  Mas quando sugeri que ele prprio fizesse o estudo do local, mudou completamente - concluiu.
-- Humm... Isso pode ser um bom sinal. Prova que no est totalmente desligado do mundo exterior. De fato, a presena daqueles homens aqui pode ser uma boa coisa 
para ele. Quem sabe vendo-os supere o bloqueio mental e tente experimentar um novo contato com o que est fora dele.
-  E se isso no acontecer? E se ele se fechar ainda mais? Oh, Mac, estou to preocupada! Para ele, as instalaes petrolferas sero teis para todos ns.  Se voc 
tivesse visto a reao dele hoje  tarde, quando conversamos sobre o acidente...
- Mas no percebe que pelo menos ele falou? Talvez  vontade de concordar para o projeto da companhia esconda um desejo de retomar a vida anterior.
-  Acha que devo concordar tambm?
Mac aproximou-se de Catherine e a olhou com olhos compreensivos.
- No exatamente concordar, Cat, mas encoraj-lo! Conseguiria fazer isso? Ela desviou o olhar para que ele no percebesse seu desespero.
-  No  sei  -  admitiu.  -  Como  sabe,  no  simpatizo  com  essa indstria...
-  Mas Magnus tem razo: os ilhus merecem a oportunidade. Seria bom para eles que a ilha fosse explorada.
Catherine sabia quando estava derrotada. Odiava a idia, mas teria que ceder. No pararia de lutar, porm. Ao primeiro sinal de que Falia correria perigo,  primeira 
pista de que aqueles intrusos poderiam prejudicar Magnus, ela faria de tudo para venc-los! .
-  No pode continuar assim, Cat - acrescentou Mac com ternura. - Seus pais no planejavam isso para voc. H quanto tempo no sai para danar ou para se divertir?
Catherine teve vontade de dizer que no se importava com diverses, que no sentia saudades dos tempos alegres de Londres. Tinha conscincia do desleixo com que 
se vestia e imaginava o quanto seu aspecto podia ser desagradvel. Mas ficou calada.
Depois de convencer Mac a ficar para jantar, garantindo que Findlay o levaria de volta a Lerwick, Catherine comeou a preparar a mesa. Ela e Magnus sempre comiam 
na cozinha, por ser um lugar quente e agradvel no inverno.
Tinha pensado numa refeio simples. Omelete feita com os ovos frescos que colhera naquela tarde, pes caseiros e um bolo leve de trigo, que j estava no forno.
Magnus entrou na cozinha quando ela batia os ovos. A caminhada tinha devolvido ao rosto dele a cor saudvel que h muito tempo desaparecera. Os dois homens se cumprimentaram 
e, como Catherine esperava, Magnus contou a Mac a proposta da companhia de petrleo.
Durante a refeio, Magnus mal comeu, limitando-se a brincar com a omelete dentro do prato. Ao contrrio, Mac, bem-humorado, limpou o prato.
- Vai lhes dar carta branca, ento? - Mac perguntou a Magnus, enquanto Catherine servia o ch.
- No vejo outra sada. E por ora eles esto apenas pesquisando.
-  Bom,  se quiser, posso colocar a carta no correio para voc - ofereceu-se Mac, ignorando a expresso de desagrado de Catherine. - No h o que esperar, se concordam 
com a proposta - comentou, ao perceber a hesitao de Magnus.
-  Acho que vo querer esperar a primavera - arriscou ela. - Nessa poca do ano, a luz do sol  fraca e nem sempre o clima  favorvel para que entrem e saiam da 
ilha a cada dia.
-  Mas por certo iro se estabelecer em Falia! - disse Mac. Catherine derrubou o ch quente na mesa, as mos tremula.
- Ora,    Catherine   -   continuou   Mac,   tentando   persuadi-la   -, sinceramente, voc no espera que eles viajem para c todos os dias!
- No ser assim?
- Que idia maluca!
- S se os ilhus os hospedarem em suas casas... - ela sugeriu. Retirou os pratos da mesa enquanto os dois homens bebiam ch, e depois ofereceu uma carona a Mac 
at o porto, j que ele insistia em partir. Magnus estava ouvindo rdio.
- Vem conosco, Magnus? - perguntou Catherine.
Ele respondeu que no com um sinal de cabea.
Mac se despediu de Magnus e saiu com Catherine.
-  Ele parece um eremita - ela se queixou a Mac, que a ajudava a subir no jipe. - Insisti para ir comigo a Lerwick, mas no adiantou.
Mac levava no bolso da capa de chuva surrada a carta de Magnus, concordando com a proposta da companhia. O jipe arrancou, avanando lentamente pela estrada sem iluminao.
- Bom, se Maom no vai  montanha, Catherine, por que no pensa em trazer a montanha at ele? - perguntou Mac, sugestivamente. - Voc disse que Magnus parece um 
eremita e ns sabemos que isso no  bom. Um homem saudvel de  anos precisa da companhia de outros seres humanos.  Se ele no quer voltar a companhia, a companhia 
que volte at ele!
- Como? Fazendo um grande espetculo beneficente?
- No h necessidade de ir at esse extremo - brincou,  sem dar ateno a irritao dela. - A soluo j existe bem na porta da sua casa. Pense bem... Os gelogos 
precisaro se fixar, precisaro de algum lugar para dormir e comer... A casa est completamente vazia...
Catherine puxou o jipe para um lado e parou abruptamente.
- Nada disso!
Pacientemente. Mac tirou as mos dela da direo e colocou entre as suas.
-  No  do meu feitio conversar com voc como um velho tio, mas agora me parece indispensvel. O que aconteceu com Mac foi trgico, mas antes de tudo foi um acidente, 
nem mais, nem menos.
-- No foi um acidente - protestou. - A United Oil sabia que aquela guerra ia explodir de um momento para o outro; os chefes podiam muito bem ter retirado de l 
aqueles homens, mas no. Eles praticamente foram atirados dentro da fogueira!
- Seja sensata! O Oriente Mdio foi sempre explosivo. As empresas respondem pelos acionistas e no podem fazer o que querem. O prprio Magnus no tem nenhum    ressentimento! 
Catherine, voc est exagerando...  Compreendo  seus  sentimentos,  pois  eu  mesmo no  me conformo quando vejo Magnus naquele estado e me lembro de como era. S 
que  ajud-lo a se  isolar do mundo  no resolve  nada.  Na minha opinio, ele est preparado para recomear a viver. Est certo,  possvel que nunca mais tenha 
condies de voltar ao antigo trabalho, mas s o fato de permitir a vinda desses homens significa alguma coisa.
-  Ele d mais importncia aos outros que a si mesmo - Catherine argumentou, deitando a cabea no ombro de Mac e chorando. Quando me deu a notcia de que o pessoal 
do petrleo viria para c, fiquei surpresa,  at me deu esperana.  Mas quando mencionei os gelogos, entendi que seria pior para Magnus. Sei disso!
- Voc o subestima, Cat. Vale a pena tentar... Se Magnus falar com eles, ser um primeiro passo para romper a barreira.
- Magnus no concordar.
- Pois   ento   no   lhe   diga   nada  -  retrucou.   - Simplesmente apresente-lhe o fato. Catherine, eu nunca daria esse conselho se no achasse bom para ele...
Catherine sabia que Mac falava para o bem de Magnus. No era apenas o mdico da famlia, era o amigo mais prximo e dedicado deles.
-  Fiona est vindo para passar o Natal comigo - disse Mac. - Ela me confessou que est magoado por Magnus no responder s cartas dela.
Fiona Mcdonald era sobrinha de Mac, enfermeira de um grande hospital de Edimburgo, e Catherine gostava dela. Na adolescncia, Fiona e Magnus foram muito amigos e 
conviveram at o acidente. Desde ento Magnus se recusava a se corresponder com ela. No quero a piedade dela, era tudo o que dizia quando Catherine perguntava sobre 
o relacionamento. Que ela tenha d dos prprios pacientes.
- Mac, voc acha que Fiona e Magnus se envolveram afetivamente?
- No sei, minha querida.  Mas isso  um assunto deles, no? O problema  que   ambos   gostam   de   dar,   e  os   generosos   raramente conseguem receber da vida 
aquilo que desejam.
Era bem diferente do homem com quem dividiu a cama no hotel, lembrou Catherine involuntariamente. Com certeza, o desconhecido no era uma pessoa generosa, um doador. 
No, ele era um homem que simplesmente tirava da vida o que bem entendesse.
Quando Mac entrou no barco de pesca, Catherine voltou para o jipe. Mas, em vez de seguir direto para casa, parou na antiga torre do velho castelo em runas e subiu. 
Quando criana, costumava se esconder ali. As paredes ainda eram suficientemente altas para resguard-la do vento e, como na infncia, ps-se a contemplar as guas 
do mar. Estava ali na noite em que recebeu a notcia da morte dos pais, e ali Magnus a encontrou, confortando-a com palavras doces.
Teria Mac razo em dizer que a presena dos gelogos na casa ajudaria Magnus a quebrar a barreira que tinha criado contra o mundo? Tudo era possvel, pensou, suspirando 
nervosamente, e com o corao cheio de amargura e de ressentimento desceu para o jipe.
Seria obrigada a receber os intrusos em nome do irmo, mas continuaria a odi-los. Nenhum dos colegas havia tentado se comunicar com Magnus depois do acidente; ningum 
da United Oil teve o trabalho de ir at Falia para v-lo! Talvez ele tivesse razo: todos o desprezavam e continuariam a desprez-lo. Eram homens duros, sem emoo 
ou compaixo, e agora se preparavam para invadir seu santurio, para espalhar s Deus sabia que tipo de destruio!
Passaram-se duas semanas sem nenhuma resposta  carta de Magnus e em seguida uma tempestade impediu a chegada do barco-correio  ilha. Era de se esperar que nada 
mais aconteceria.
Com o temporal, Mac s pde se comunicar com eles pelo telefone.
-  Alguma notcia sobre o terminal? - quis saber, quando ligou.
-  Nada. E quero esquecer esse assunto - respondeu Catherine. - Espero que desistam do projeto.
Mac riu. Catherine enredava-se numa teia de aranha. Tinha estado limpando quartos, desenterrando lenis de guarda-roupas por milagre no atacados pelo mofo. A casa 
havia sido mobiliada numa poca anterior  introduo de novidades como aquecimento central, quando as mulheres sabiam como guardar e conservar lenis de linho. 
Embora no chegasse nenhuma resposta da companhia de petrleo, ela no queria ser pega de surpresa, caso finalmente decidissem concretizar os planos.


                                   CAPTULO III


Faltava uma semana para o Natal e o clima estava relativamente agradvel. As ilhas Shetland no conheciam veres muito quentes nem invernos rigorosos demais. Apenas 
o vento era constante e quase sempre forte.
Catherine aproveitou o. sol fraco para lavar algumas roupas de cama e Magnus se fechou na biblioteca. Mais tarde, ela preparou caf e o levou a Magnus, que lhe pareceu 
mal-humorado e sem disposio para conversar. Depois de insistir, fazendo-lhe algumas perguntas em vo, achou melhor sair e deix-lo de novo mergulhado na solido 
de sempre.
Estava com dor nas costas de tanto trabalhar. Havia limpado soalhos cobertos por camadas grossas de sujeira, lavou janelas que h muito no eram abertas. J que 
era obrigada a suportar a presena dos homens do petrleo, no ia lhes dar a chance de criticarem as acomodaes. Antes de decidir comear a faxina, pensou em pedir 
ajuda ao irmo, mas ele, ao que parecia, nem tinha chegado a notar seus movimentos e as alteraes que a casa comeava a sofrer.
Preparou um po especial para o Natal, do jeito que o irmo apreciava. Ao tir-lo do forno lembrou que em breve faltaria turfa para a lareira. Os rendeiros tinham 
cortado uma grande quantidade para todo o inverno; j estava seca, s faltava transportar para o barraco anexo a casa. Ela sozinha no conseguiria fazer isso e no 
queria pedir ajuda a Magnus. A tempestade s vezes trazia pedaos de madeira e os deixava na praia. Daria um passeio, ento, para ver se encontrava algum. Chamou 
o co, Russet,  e  vestiu  a  capa  que  havia  sido  de  Magnus.   Ele  a  deixava pendurada  na cozinha para  us-la  no  inverno,  quando  precisava  sair debaixo 
da garoa para alimentar as galinhas e colher ovos.
O cu estava absolutamente limpo, mas nenhum ilhu se deixaria enganar. As tempestades formavam-se com rapidez, como se surgissem do nada.
Foi para uma praia prxima da casa, onde poderia encontrar os pedaos de madeira. Parou o jipe numa faixa de areia firme, abriu a porta e saltou para fora. Russet 
pulava em torno dela e metia-se entre suas pernas.
Os ilhus utilizavam os pneis de Shetland para transportar madeira e turfa. Enquanto Catherine caminhava carregando restos encharcados de madeira, imaginou como 
seria fcil poder assoviar para o jipe e mand-lo correr obedientemente na sua direo.
. O mar tinha sido generoso na oferta de detritos teis e ela procurava recolh-los tanto quanto podia. Russet apareceu carregando um graveto na boca. Catherine 
agradeceu, pegou a madeira e atirou-a longe, para que fosse busc-la. Logo ele a abandonou para, inutilmente, tentar caar uma gaivota que voou levando o alimento 
no bico.
Instintivamente, em vez de voltar para casa, Catherine foi at o porto e l encontrou Findlay, como esperava.
- Veja o que a mar trouxe - ele disse, ocupado com uma dezena de lagostas. Ergueu-se, foi at o jipe e comentou: - No tem mais turfa, no ?
- Tenho muita, mas preciso transport-la da colina para casa e no quis importunar Magnus.
- Para no atrapalhar os pensamentos dele sobre   o  negcio  da enseada?
Catherine no se surpreendeu por Findlay estar o par do projeto do terminal.   
- O que voc acha disso, Fin?
-  Olha, agente no pode impedir o progresso.,. J se foi o tempo quando um rapaz se sentia feliz por ter um barco de pesca e um pedacinho de terra. Hoje isso no 
satisfaz mais um homem e nem o torna igual aos outros...
-  Magnus   pensa   que   seria   egosmo   privar   a   gente   daqui   da prosperidade que o terminal pode trazer.
- As coisas mudam, senhorita - retrucou Findlay calmamente, lendo os  pensamentos  turbulentos  que ela  escondia  debaixo  de  um aspecto sereno. - J notou que 
tem muitas pessoas velhas aqui em Falia'.' No vivemos para sempre e a pesca no  mais a mesma de antigamente. A gente tem que olhar para o futuro, no para o passado. 
- Ps no cho a cesta cheia de lagostas. - Davie saiu com o barco, mas volta logo. Depois vamos at a colina buscar a sua turfa.
- No precisa, no - agradeceu. - Magnus pode... Findlay balanou a cabea.
- D tempo ao tempo, senhorita. Deixe-o consigo mesmo,. Tudo  uma questo de oportunidade.
No caminho de volta para casa, Catherine ouviu o som de um helicptero e olhou para o alto automaticamente, o corao batendo de contentamento ao ver as cores familiares. 
Mac devia ter ido de novo nas plataformas e decidiu visit-los. A estrada no estava em boas condies para andar muito depressa e quando chegou em casa o helicptero 
j havia decolado. Guardando o jipe onde antes ficavam as cocheiras, e que agora abrigava apenas galinhas, disparou para dentro de casa.
A cozinha estava vazia, mas ouviu vozes na biblioteca. Sem parar para tirar a capa impermevel, correu, escancarando a porta. Chocada, deteve-se para olhar incrdula 
o que tinha diante de si.
Em vez de Mac, estavam ali alguns homens que pareciam no notar a sua presena. Magnus conversava com eles, com a voz insegura e cansada. Catherine fechou os punhos, 
as lgrimas querendo explodir. Quem eram aqueles estranhos? Que estavam fazendo em Falia?
Debruavam-se sobre alguns papis espalhados pela escrivaninha. Um deles endireitou o corpo para olh-la. Era ruivo de ombros largos, um tipo muito comum por l.
Finalmente Magnus a viu.
-  Catherine! - exclamou, aliviado. Parecia querer dizer: fique perto de mim! -
Ela correu para ele, ansiosa.
-  Seria bom que algum nos mostrasse as acomodaes. Se possvel, aproveitaremos a luz do dia que resta para comearmos o trabalho.
Como num passe de mgica, o dono da voz surgiu de entre os homens. Catherine ficou sem ar e sentiu os ps pesados como chumbo querendo fincar-se no piso. Se pudesse, 
sairia correndo dali!
-  Cat,   este    Brett  Simons  -  Magnus  apresentou.  -  Ele  est chefiando a equipe de pesquisa.
-  Por que no nos avisou que vinham para c, sr. Simons? Enquanto  se  recusava  a  retribuir o  sorriso  que  Simons  lhe  dava,
Catherine surpreendia-se com a naturalidade do comportamento dele. Ela, no entanto, mostrava-se chocada. Ningum, a no ser ela, sabia quem era o sujeito chamado 
Brett Simons... o homem que tinha dormido a seu lado naquela cama de solteiro!
-  Mas, Cat, Brett me telefonou hoje de manh avisando que viriam - informou Magnus, desaprovando a grosseria dela. - Quando ia lhe dizer, voc j tinha sado.
-  Imagino  que  a  srta.   Peterson,  como todas  as  mulheres,  detesta visitas inesperadas - observou Brett Simons, maliciosamente.
Catherine desejou esbofete-lo! Bastaria contar tudo a Magnus para Brett Simons ser expulso de Falia para sempre!
Aproximou-se do irmo e hesitou, lembrando dos conselhos de Mac. Passou a lngua nos lbios secos e compreendeu que nem Brett nem os trs companheiros aceitariam 
os argumentos de uma mulher.
- Eu...  - comeou.  - Ns estvamos  esperando  uma  carta  de vocs...
-  Sabamos que, com mau tempo, o barco-correio no vinha para c. E  uma  vez  que  vocs  tinham  concordado  com  a  proposta,  achamos melhor vir logo - explicou 
Simons. - Desculpe a surpresa.
Cat olhou bem dentro daqueles olhos verdes, para ver se descobria algum significado escondido no que o homem falava. O que estaria querendo dizer com surpresa?
-  Sim,  vocs nos pegaram de surpresa,  mas isso no  nenhuma tragdia - respondeu, afinal.
Observou com ternura o rosto plido de Magnus. Se de alguma forma a presena desses homens na casa e a instalao do terminal ajudariam o irmo, Catherine ia colaborar.
-  Parece que  viemos atrapalhar algum  servio domstico - disse Brett Simons, olhando indiscretamente para a capa surrada de Catherine.
-  Eu  estava  apanhando  madeira  na  praia -  respondeu,  tentando conter a irritao.
Ele que pensasse o que quisesse, disse para si mesma. Por que se sentiria embaraada por estar vestida daquele jeito? Era assim que gostava e, alm disso, no sentia 
a menor vontade de fazer o papel da boa anfitri. Estavam em Falia, no num hotel luxuoso de Londres!
.   - Puxa,  que  coisa extica!  - exclamou um jovem  com  sotaque norte-americano. - Isso  costume entre vocs?
Catherine lanou um olhar fulminante para o rapaz, fazendo-o corar. No passava de um adolescente ingnuo, mas era tarde para voltar atrs. Se Brett Simons e seus 
homens iam viver em Falia, teriam de aceitar o modo de vida da ilha.
- Voc est nas Shetland - ela informou secamente -, no em Nova York. No sei se percebeu, mas por aqui no crescem rvores. Se quisermos fogo na lareira, temos 
de cortar a turfa ou pegar a madeira que o mar traz por acaso.
- Obrigado pela aula de geografia, srta. Peterson - adiantou-se Brett Simons.  - Tex nunca saiu dos Estados Unidos.  Ele se sente to  vontade aqui quanto  senhorita 
se sentiria no Texas.
Catherine mordeu os lbios para no responder agressivamente. Resolveu encerrar a discusso. Magnus parecia cansado. Ansiosa por conversar com ele sugeriu aos visitantes 
que se servissem bebidas e pediu ao irmo que a acompanhasse para fora da biblioteca.
-  Eles no tm que ficar aqui - disse. - Os rendeiros...
-  No. No quero que me chamem de covarde ou pensem que sou um pssimo anfitrio. Procure algum que possa ajud-la.
-  Dou um jeito sozinha - ela garantiu, dispensando a sugesto.
No fundo, Catherine sabia que no tinham condies financeiras de empregar algum e era orgulhosa demais para pedir ajuda se no pudesse retribuir de alguma maneira.
-  Se no os quer por aqui, Magnus, sempre  tempo de dizer que mudamos de idia.
Nisso, a porta da biblioteca se abriu e por ela passou Brett Simons.
- Pode nos mostrar os quartos?
Catherine sorriu friamente. .   - Naturalmente. Por aqui, sr. Simons...
Ele a seguiu at as escadas sem despregar os olhos dela.
-- Srta. Peterson...
Catherine virou e o encarou, furiosa.
-  Por favor -- continuou ele.  - Alguma coisa me diz que  no precisamos ser formais um com o outro. No acha?
Magnus os olhava de longe, intimidando-a a dar a resposta que Simons merecia.
_ Nada me diz isso - falou quase murmurando.
- Cat--. So seus olhos que me dizem isso. Gostaria realmente de saber o que sua cabecinha est pensando.
-  Com um pouco de imaginao, talvez voc descubra.
-   o que veremos. - Ele fez um sinal para ela prosseguir.
Com as pernas tremula, Catherine atravessou o corredor onde estavam os quartos que tinha reservado.
A casa possua dezesseis dormitrios distribudos em dois andares. Ela e Magnus dormiam nos mesmos quartos desde a infncia. Entre os dois ficava o escritrio dele, 
fechado desde o acidente.
Catherine tinha preparado os quartos no mesmo andar que ela e Magnus ocupavam, mas quela altura, porm, estava arrependida de no t-los colocado no segundo pavimento. 
Como Magnus reagiria  presena constante daqueles homens na casa?
Abriu a primeira porta e deixou Brett passar. Ele examinou o quarto em silncio, detendo-se na cama de casal.
-  Voc esqueceu de que eu gosto de cama de solteiro. Catherine sentiu o rosto esquentar, de vergonha. Mas ficou firme.
-  Todos os quartos tm cama de casal, mas pode continuar a dizer o que est pensando. Est doido para falar daquela noite desde que me viu l embaixo! At me surpreendeu 
por no contar na frente de todo mundo. Ou seus colegas j sabem?
-  No  porque passou uma noite comigo que voc me conhece. Quanto aos meus colegas  saberem...  no sou  do tipo de sujeito que alimenta o ego espalhando por a 
as aventuras sexuais.
- Ah, ? J esqueceu que no aconteceu nada que pudesse alimentar o seu ego? Sem duvida, se tivesse acontecido...
-  Se tivesse, ningum precisaria saber! Teria sido um assunto meu e seu! - Brett viu a descrena nos olhos dela. Fechou a porta. - J que minhas palavras no a 
convencem, quem sabe posso convence-la de outra maneira.
- No! - gritou Catherine, presa entre os braos dele e a porta. Sua splica no foi atendida por Brett, que a apertou mais ainda.
- No   gosto   do   tipo   de   acusao  que   voc   fez  -  ele  disse, divertindo-se com o medo de Catherine. - Tambm no gostei do jeito que respondeu para 
o Tex l embaixo.  No sou bobo para deixar de perceber que no nos quer aqui. Foi bastante clara nesse ponto. Ou  s a mim que no quer? De que est com medo?
-  De nada!
Estava mentindo. A razo de seu medo era uma estranha e vaga emoo experimentada uma vez s... nos braos dele. Um inesquecvel beijo frio!
-  De nada mesmo?
O corao de Catherine disparou e, alarmada, pensou que um homem como ele devia conhecer todas as emoes que despertavam numa mulher!
-  Solte-me! - gritou de novo.
Mas ele a pressionou ainda mais contra a porta, colocou o corpo no dela e lhe deu um beijo rude. Lutando contra ele fechou a boca com fora. Porm, um segundo depois 
Brett a soltou.
Que estranho, pensou. Brett Simons no  um homem de desistir facilmente. Foi ento que ouviu vozes no corredor e entendeu que ele tinha ficado atento o tempo todo. 
Apenas para ela o mundo exterior havia desaparecido por alguns segundos!
Enquanto Catherine mostrava os quartos para os trs homens, Brett no tirou os olhos dela, ainda irritado com a acusao de que tinha revelado o segredo deles ou 
de que era capaz de cont-lo aos colegas na presena dela.
Quando finalmente ia deix-los sozinhos para se acomodarem, Brett perguntou:
- A que horas voc nos dar de comer? - Falava calmamente, mas com certa ironia.
No tinha pensado nos horrios de refeio, pois ela e Magnus no seguiam nenhuma rotina.
-  A hora que quiserem - respondeu, hesitando.
Na verdade, estava com mais um problema nas mos, pois dispunha de alimentos suficientes apenas para ela e o irmo. Seria necessrio telefonar para Lerwick e pedir 
a Findlay que buscasse as reservas de mantimento.
-  Bom, digamos que o caf da manh saia bem cedinho, l pelas seis;: um almoo rpido por volta do meio-dia e um bom jantar s sete horas. Est bem assim? - Brett 
sugeriu.
Catherine concordou com um sinal de cabea e desceu as escadas apressadamente em direo  cozinha.
Magnus e Russet no se encontravam na casa. Examinando o estoque, descobriu algumas latas que tinha guardado para uma situao de emergncia. Toda carne fresca vinha 
de Lerwick e, no caso deles, apenas uma vez por ms. Descascando batatas com rapidez, decidiu que naquela noite teriam de se contentar com um pastelo de batata 
e atum. Para o caf da manh, os ovos dariam perfeitamente, alm dos pezinhos que, felizmente, teve a idia de fazer.
Enquanto as batatas cozinhavam, saiu para pegar os restos de madeira do jipe. Mais tarde, desceria at o porto para falar com Findlay sobre a remoo da turfa seca. 
Teria de acender todas as lareiras dos quartos ocupados.
Estava carregando o ltimo punhado de madeira quando a porta da cozinha abriu. Aliviada, chamou Magnus para ajud-la. Mas Brett, e no Magnus,  que se aproximou 
oferecendo ajuda.
-  Por que est se matando sozinha? Onde est seu irmo? - ele perguntou, mal-humorado.
Catherine no gostou da observao. No admitia que um estranho recm-chegado criticasse Magnus.
- Deixe, posso me virar sozinha.
- De fato no gosta de mim, no ? Por qu? S por que estou aqui?
- Haveria outro motivo? Nem todas as mulheres se sentem atradas por maches!
- A julgar pelo modo com que voc se relaciona com seu irmo, seu tipo de homem  pacato e dependente!
Catherine, sem dizer nada, apressou o passo. Brett agarrou-a pelo brao, forando-a a parar.
- Eu levo a madeira.
O pastelo foi consumido em segundos, para surpresa dela. Era de se esperar que aqueles brutalhes tivessem um apetite de leo. Magnus, ao contrrio, servira-se 
com uma pequena poro e mal tinha tocado.
O rapaz americano, Tex, insistiu em conversar durante a refeio, mas Catherine no lhe deu muita chance. S dava respostas secas. Esses homens no so amigveis, 
pensou. No passavam de intrusos e deveriam ser considerados como tais.
Ao levantar para comear a retirar os pratos da mesa, Alex, um outro jovem, tambm se levantou, oferecendo-se para ajudar.
- No precisa, obrigada - respondeu, censurando-se pela grosseria.
Mas ao mesmo tempo lembrando do tom da voz de Brett, ao perguntar por que o irmo no a ajudava.
- Tex - disse Brett, enquanto Catherine deixava a mesa -, procure os mapas  que  trouxemos  para pesquisar  a enseada.   Enquanto  dia, podemos adiantar alguma 
coisa.
- Quem   vai   mergulhar,   chefe?   -   perguntou   Alex,   observando Catherine limpar a mesa.
- Eu  mesmo.   Eis uma coisa que podemos  fazer:  verificar  se os aparelhos de mergulho esto em ordem. Tex, voc entende de mergulho em guas geladas?
Catherine ouviu-o explicar os mtodos e os riscos. Magnus, certamente, sabia mais do que ningum como mergulhar em guas geladas, mas ele estava com a cabea abaixada 
sobre o prato, alheio  conversa como se estivesse ausente da cozinha.
- Obrigado pela refeio, Catherine - agradeceu Brett, quando ela tirou o prato dele. - Precisamos de um cmodo para trabalhar hoje  noite...
- Pode  usar  a  biblioteca  -  respondeu  Magnus,   gentilmente.   -| Tenho que sair.
- No queremos atrapalhar, Magnus - retrucou Brett, mas Magnus j estava na porta, acompanhado do co fiel.
Catherine correu para o irmo, esquecendo por um momento os visitantes.
- Magnus, no...
- S vou ver Findlay - explicou. - Faz anos ns prometemos tomar juntos uma garrafa de cerveja malte...
Fez-se um silncio total. Catherine percebeu, pelo olhar de Tex, que ele estava pensando que Magnus era alcolatra. Sentiu uma histrica vontade de rir. Magnus, 
provavelmente, preferia que todos pensassem isso dele.
Tex se ofereceu para lavar os pratos e mais uma vez ela o ignorou, fechando a porta abruptamente. Por que se comportava daquele modo? perguntou-se, furiosa com ela 
mesma. Arriscou uma resposta: no havia pedido que invadissem a casa, que a insultassem e condenassem Magnus!
Uma hora mais tarde, ao passar pela porta da biblioteca, escutou as vozes dos homens. De vez em quando, riam. Como aquilo a incomodava! A porta abriu de repente, 
pegando-a desprevenida.  Recuou,  corada,como se fosse culpada de alguma falta, embora no tivesse motivo nenhum.
Brett fitou-a em silncio, enquanto l de dentro ecoava outra risada.
_- Pode entrar - ordenou, escancarando a porta. - E feio ficar escutando s escondidas. Dou minha palavra de que seu nome no foi e nem ser mencionado. O que h 
de excepcional em voc que a faz pensar que  assunto principal de todas as conversas?
-  No  nada disso! - defendeu-se, indignada. - Queria s usar o telefone. Longe de mim a idia de interromp-los.
Em parte, dizia a verdade. Queria falar com Mac e perguntar sobre como alimentar aqueles homens. Ele visitava as plataformas constantemente e deveria saber. Parecia-lhe 
evidente que um simples pastelo no os tinha satisfeito.
- Usar o telefone? - perguntou ele sorrindo, deixando claro que no acreditava. -- V em frente. Seu namorado no pode esperar...
Catherine pressentiu que, se confirmasse a insinuao, Brett zombaria dela. De fato, aquele homem sabia que seus namorados tinham sido passageiros. Pela primeira 
vez em toda a vida lamentava ser to inexperiente sexualmente. No conseguia entender o porqu disso.
Com aqueles quatro homens presentes, era impossvel explicar a Mac o que estava acontecendo, por isso preferiu no telefonar. Despediu-se deles e Brett fechou a 
porta s suas costas.
Depois de subir e descer os degraus da escada para levar os feixes de turfa em cada quarto, as pernas de Catherine estavam doendo, o corpo lodo se ressentia. Sabia, 
no entanto, que ao ir para a cama no conseguiria pegar no sono. Brett estaria dormindo no terceiro quarto depois do seu...
Voltando  cozinha, verificou se tudo estava preparado para a manh seguinte. Nisso, Alex enfiou a cabea pela fresta da porta.
-  O chefe mandou perguntar se o jantar est pronto - disse, todo sorridente.
- Jantar!  - exclamou  Catherine.  olhando-o perplexa.  - Daqui  a pouco - respondeu, insegura.
Depois que Alex saiu, Catherine fez uma jarra de chocolate bem Quente, pegou todos os pezinhos que sobraram, ps tudo no carrinho de mo e foi para a biblioteca. 
Parou antes de entrar, perguntando-se se devia bater ou no. Nisso Brett abriu a porta e apareceu, cruzando os braos e examinando o carrinho. Catherine olhou atentamente 
seus braos fortes cobertos de plos e perturbou-se, muito mais do que quando o viu nu na penumbra do quarto do hotel.
- Jantar - anunciou, a voz tremula.
- Jantar?!
- Foi o que pediu.
-  isso o jantar?
-  o que tenho para oferecer. Se no quiser, levo de volta.
Brett tinha andado pela casa, pensou ela, e por certo sabia que no estavam em boa situao financeira.
As luzes piscaram e Catherine ergueu os olhos, temerosa. O gerador vinha funcionando bem nos ltimos dias, mas se quebrasse agora no haveria como consert-lo.
- O que est acontecendo? - perguntou Brett, quando a luz voltou piscar.
- O gerador. Ou pensa que nossa eletricidade vem da rede nacional? No houve tempo de Brett retrucar: num segundo, a casa mergulhou na escurido.
- O que foi? - gritou Alex da biblioteca.
- Ei, o que houve? - perguntou quase ao mesmo tempo o quarto membro da equipe, um australiano.
- O gerador enguiou -- Brett informou laconicamente.
- Pois . Acho melhor ir ver o que deu nele - resmungou Catherine, ansiosa para escapar da penumbra aveludada que os envolvia.
Mas o que estava acontecendo com ela? perguntou-se. Caminho devagar at a cozinha e foi direto para o guarda-comida, de onde tiro velas e uma lanterna.
No era difcil saber que tipo de homem era Brett Simons: frio, rude, completamente  indiferente  com os  outros.  No entanto,  cada  vez que chegava perto dela 
provocava as emoes mais estranhas.
-  Vou com voc - disse Brett da porta.
-  Pode deixar que eu vou sozinha. Estou acostumada.
Brett no respondeu. Simplesmente tirou a lanterna da mo dela e abriu a porta da cozinha. Ele claramente estava recusando qualquer argumentao em contrrio.
O gerador ficava num dos antigos estbulos e quando Catherine escancarou a porta sentiu que as foras a abandonavam. Tinha uma vaga noo do que estava errado. Magnus 
 que normalmente cuidava daqueles imprevistos, e se estivesse sozinha teria ido para a cama, deixando o problema para o irmo resolver. Agora no havia outra sada 
seno ir at a mquina parada e ter a sorte de Brett desistir de acompanh-la.
-  Sabe o que est fazendo? - perguntou ele, iluminando o gerador.
Ela ignorou a pergunta e tomou a lanterna das mos dele. Suando de nervosismo, que aumentava a cada segundo por causa do silncio quase absoluto, Catherine tentou 
lembrar de algumas explicaes dadas por Magnus a respeito de geradores. Era intil! Nunca conseguira prestar ateno em todas aquelas complicaes!
- Catherine,  voc  est tremendo.  Segure essa lanterna direito! - ordenou   Brett,   impaciente,   puxando-a  para  o. lado  e  examinando  o gerador. - Meu Deus! 
Essa geringona deve estar caduca, de to velha!
Ele parecia saber perfeitamente o que estava fazendo. Foi com alvio que Catherine ouviu o rudo surdo da mquina que voltava a funcionar.
-  Por que no compra uma nova? Ou ser um outro truque seu para espantar a gente daqui?
- A idia da base petrolfera em Falia no foi nossa - disse, com desdm.
- A base no foi instalada ainda, Catherine. Se no nos queria, por que no recusou a proposta?
Ela ficou em silncio. No ia lhe falar a respeito de Magnus. Brett Simons nunca compreenderia.
- Acho que sei - continuou ele. - Imagino que a quantia oferecida foi bastante tentadora. Mas vocs no pegaram o dinheiro. E no vo ver nem a cor dele se a enseada 
der em nada.
Catherine entreabriu a boca para negar a acusao, mas fechou em seguida. Pouco importava o que ele pensava deles! No era a primeira vez que a interpretava mal!
- Obrigada por consertar o gerador.  No esquea de apresentar a conta pelo servio!
-  Muito   engraado.   No   a   considerava  to   ligada   em  dinheiro. Orgulhosa, cabeuda e inocente, sim, eu achava que voc era. Errei de longe, no?
Deu-lhe as costas e saiu sem dizer uma palavra mais, deixando-a estupefata, querendo saber que dor era aquela que comeava a sentir  dentro do peito! Que capacidade 
aquele homem possua de distorcer as coisas! Por que ele teimava em v-la como m, quando na verdade.  Suspirou fundo e caminhou com dificuldade em direo  cozinha. 
No tinha dado de comer s galinhas ainda, precisava descer para falar com Findlay e Magnus no havia voltado.
Meia hora mais tarde, estacionou o jipe em frente  casa de Findlay. Um candeeiro iluminou a janela e pouco depois o homem abriu a porta, recebendo-a com expresso 
severa.
-  Est aqui -- disse, virando a cabea em direo  lareira.
O corao de Catherine bateu mais depressa ao ver o irmo. Ele estava de olhos fechados, respirando com dificuldade, e uma garrafa de usque vazia sobre a mesa explicava 
tudo.
- Por que no o impediu? - perguntou. Findlay balanou a cabea.
- No faa mau juzo dele, senhorita. Ele ouviu aqueles homens com coragem, mas as palavras deles rasgaram seu corao.
- Ajude-me a coloc-lo no jipe - pediu a Findlay. - Pode ir a Lerwick para mim amanh cedo? Preciso de mantimentos.
- Est ameaando mau tempo - alertou ele. - O doutor no pode fazer isso, quando voltar da plataforma?
- Pedirei a ele.
Catherine ficou desapontada, mas tinha certeza de que, se fosse possvel, Findlay no teria recusado o pedido.
-  Se quiser,  tenho  peixes  aqui - ele  ofereceu,  enquanto  erguia Magnus da cadeira e,  segurando-o por debaixo dos braos,  procurava ajeit-lo no assento do 
veculo. A cabea dele pendeu para trs e lgrimas saram dos olhos.
-  Logo,   logo  ele  vai  ficar  bom - comentou  Findlay,  querendo tranqiliza-la. - Vai s sentir uma dorzinha de cabea. No se zangue com ele, sim?
- No, Findlay. Obrigada.
Findlay colocou uma cesta de peixes dentro do jipe e Catherine arrancou lentamente, para no despertar Magnus. Com o corao partido, desejou nunca ter permitido 
a presena de Brett e sua equipe em Falia. Se em poucas horas o irmo estava naquele estado, que aconteceria at o momento de eles partirem? Ah, se Mac estivesse 
na ilha para examin-lo! Sentiu uma vontade irresistvel de dizer a Brett para ir embora imediatamente!
Magnus murmurou alguma coisa e Catherine parou o jipe. J tinham chegado e precisava tirar o irmo com cuidado, embora no tivesse fora para suportar o peso dele. 
Magnus desceu cambaleando, mas conseguindo ficar  sobre  as pernas.   Russet choramingou  tristemente,  como  se  no compreendesse por que seu dono debruava-se.'daquela 
maneira sobre os ombros da irm.                                              .                                    
Depois de chegar  cozinha, Catherine praticamente perdeu o flego. Num ltimo esforo, tentou pegar Magnus de novo para lev-lo ao quarto. Esbarrou numa cadeira, 
que caiu sobre o cachorro. Russet ganiu de dor e Catherine espantou-o da cozinha. A casa estava em silncio, provavelmente todos dormiam.
No fim do saguo, parou para respirar, antes de comear a subir os degraus. No fossem os hspedes, poria Magnus para dormir na biblioteca, mas seria terrvel se 
os homens o vissem de manh naquele estado.
Carregando-o nas costas, conseguiu subir trs degraus. Nisso uma luz no corredor disse-lhe que no estavam sozinhos.
-  Que diabo est acontecendo? - exclamou Brett, mudando o tom de voz ao ver a cena. - Meu Deus do cu!
Correu e alivou-a do peso do corpo de Magnus, colocando-o em p.
- Ele costuma encher a cara desse jeito.?
- No, no costuma.
- Bom, pelo menos eu no estava to errado  a seu respeito - observou Brett. - Voc  uma mulher de virtudes...  a lealdade, por exemplo. Mas lealdade para uma causa 
perdida! Onde fica o quarto dele?
-  Este aqui - respondeu, abrindo a porta.
Brett ergueu Magnus nos braos e em poucos segundos deitou-o na cama.
-  Obrigada - disse ela, afastando-se de Brett. - Agora eu cuido dele.
-  Quem fala  a voz da experincia. E eu que pensei que aquela modstia inocente era verdadeira!
-  Saia, por favor - pediu, segurando a porta aberta.
-  Vocs formam um belo par, no? - Foi para a porta. - No se intimide por mim. J sei quem voc , lembra-se?
E ela sabia quem ele era, disse para si mesma to logo Brett deixou o quarto. Um homem insensvel e macho!

                                CAPITULO IV
Catherine levantou s seis da manh para ter tempo de ajeitar as coisas para o almoo e fazer o caf. Enquanto preparava a massa de po, lembrou que ainda no tinha 
conversado com Mac. Deixou a massa descansando e correu para o telefone. Atendeu a secretria eletrnica e Catherine contentou-se em deixar um recado, explicando 
rapidamente a situao.
Embora fossem quase sete horas, o dia ainda estava escuro. Arrumou a mesa, vestiu a velha capa impermevel e saiu para alimentar as galinhas.
O vento batia em seu rosto, e o cabelo voava; no teve tempo de prender. As galinhas cacarejavam  sua volta, ciscando o milho modo. Trs  gansos  apareceram  no 
ptio,  gingando,  engraados,  e  Catherine suspirou. Alguma coisa lhe dizia que, mesmo que convencesse Magnus a matar as aves, nunca teria coragem de comer um 
pedacinho sequer delas. O que era ridculo e indicava o quanto sua educao em Londres havia sido exageradamente refinada.
A velocidade do vento aumentava pouco a pouco, confirmando a  previso do temporal feita por Findlay. A nica esperana era Mac visit-la como fazia habitualmente 
e levar os mantimentos para alimentar  as seis bocas!
Pouco mais tarde, o aroma do po recheado com batata e do mingau de   aveia impregnava a cozinha. Brett foi o primeiro a descer, indo direto at  a bandeja para 
satisfazer a curiosidade. - Po.' - exclamou, decepcionado. - Enche a barriga mas no  nutritivo: Serve para o seu irmo bbado. Meus homens do duros e costumam 
comer coisas ricas em protenas...
Catherine ficou furiosa, no exatamente por causa das palavras desaforadas de Brett, mas pelo tom arrogante.
Antes de ter tempo de responder  altura, os trs homens entraram e sentaram, obrigando-a - a servir a mesa com m vontade. Em seguida, deixou-os sozinhos e subiu 
para levar ch a Magnus.
Ele j estava acordado, os olhos inchados e tristes.
- Bom dia, Magnus.
- Bom dia. Cat.
- Escute...   Que tal mand-los embora   imediatamente?   -   disse, botando o bule de porcelana no criado-mudo.
Ele balanou a cabea negativamente.
- No podemos. Ui, como di a cabea! Temos aspirina em casa? Catherine compreendeu que o assunto estava encerrado.   Foi at o banheiro, deu-lhe o comprimido e 
desceu.
Ao chegar perto da cozinha, parou ao ouvir mencionarem seu nome. Era Alex que falava, impaciente.
- Pode ser que a enseada d em alguma coisa, mas esses dois no foram com a cara da gente e acho que vo querer atrapalhar o trabalho.
- Quando chegar a hora, a gente v como contornar esse problema - respondeu Brett rispidamente. - Tenho umas idias a respeito.
- Vai usar um pouco do velho charme, Simons? - brincou Alex, provocando risadas.
- Caramba! To morrendo de fome - comentou Tex. - Ser que eles nunca ouviram falar em bife suculento? L em casa a gente comia um do tamanho deste prato aqui.
Catherine escancarou a porta, com o rosto vermelho de raiva.  Os homens calaram e no comentaram mais nada, enquanto ela permaneceu ali, embrulhando o lanche para 
eles levarem. Mas os olhos de Brett no se cansaram de acompanhar-lhe os dedos trmulos.
Depois que saram para a enseada, Magnus desceu, recusando-se a comer qualquer coisa. Entrou na biblioteca e debruou-se sobre o mapa da ilha. Foi assim que Catherine 
o encontrou ao levar-lhe um pouco de caf. Dava pena v-lo daquele jeito. Era possvel que Magnus estivesse brigando consigo mesmo, uma parte resistindo e outra 
desejando acompanhar os trabalhadores na tarefa que ele to bem conhecia.
Voltaram todos  tarde, molhados e enlameados.
- Se quiserem tomar banho, tem gua quente para todo mundo - sugeriu Catherine, flagrando o olhar de desconfiana de Brett.
- Obrigado - respondeu ele.
- Queria beber alguma coisa - comentou Alex. - Mas acho difcil encontrar...
- Nem se virar  casa de cabea para baixo - disse Bret. sarcstico. No jantar, Catherine serviu sopa e as carnes em conserva que tinha guardado na prateleira para 
uma urgncia.  Se ela e Magnus quisessem comer, no haveria seno duas ou trs garfadas para cada um. Mais uma vez Brett estampava no rosto aquela expresso de ironia 
que tanto a irritava. Que podia fazer se no dispunha de mais comida? perguntou-se, indignada.   A culpa era deles, por no terem avisado com bastante antecedncia. 
No mximo, para o dia seguinte oferecia os peixes dados por Findlay que, alm disso, havia trazido carne de cabra, dada por Margaret Cullon, a senhora que mantinha 
uma pequena criao de animais destinada  alimentao dos habitantes da ilha.
-- Amanh voltaremos a mergulhar - disse Brett, depois de comer, arrastando a cadeira para trs e levantando.
- Mas voc disse que a gente ia esperar o vento amainar - protestou Tex.
Quando Catherine comeou a limpar a mesa, ouviu Bill, o australiano, comear:
- Isso foi antes de Brett perceber que a gente est correndo o perigo de morrer de fome.
s vezes,  noite, Catherine e Magnus jogavam baralho ou domin,  quando o irmo lhe sugeriu um jogo ela aceitou prontamente, mesmo tendo planejado passar a noite 
preparando as atividades da manh. Era a primeira vez, desde que aqueles homens tinham chegado, que Magnus tomava a iniciativa de fazer alguma coisa. Assim, sem 
pestanejar, abandonou o que estava fazendo e o acompanhou at a biblioteca.
Ao entrar, viu Brett lendo um livro. Deu um olhar gelado aos quatro homens.
- Baralho ou domin? - perguntou Magnus.
- Domin. No sou boa quando jogo cartas com voc, Magnus riu.
Sentiu-se mais disposta ao ver a alegria do irmo, e sequer deu ateno a Tex, que, curioso para assisti-los jogando, aproximou-se vagarosa e timidamente.
- Puxa!  Parece gostoso jogar isso! - exclamou, quando Catherine ganhou.
O velho relgio do saguo bateu nove horas, lembrando-a do trabalho que a esperava.
- Se quiser, pode se sentar aqui no meu lugar. Tenho que trabalhar na cozinha - disse ao rapaz americano, cujo rosto se iluminou. - Magnus vai lhe ensinar a jogar.
- Posso jogar mesmo?
- Claro - falou, saindo da biblioteca.
Em seguida, todos os homens rodearam a mesa com olhares de curiosidade. Todos, exceto Brett, que no desgrudou os olhos do livro.
A vida vinha sendo uma corrida contra o tempo, refletiu Catherine, carregando apressada um pouco de turfa. O jantar naquele dia seria o mesmo: fraco e pouco nutritivo.
Suspirando, arrastou o cesto cheio de turfa pelo saguo e o levou para cima. As camas j estavam arrumadas e limitou-se apenas a preparar as lareiras. Estava subindo 
com a carga pela ltima vez, quando Brett apareceu na porta de seu quarto. Tinha o rosto sombrio, mas uma expresso irnica.
- Em nome de Deus, o que est fazendo? - perguntou, fitando-lhe o rosto coberto pelos cabelos desmanchados e deslocando o olhar para o cesto.
- No parece bvio?  Ou acha que o fogo das lareiras se acende sozinho?
- O  que  eu   acho    que  o  seu  irmo  devia  fazer  esse  servio. Catherine, que diabo o seu irmo faz em casa? Alm de encher a cara, naturalmente, e jogar? 
Que tipo de    homem        ele,    que    senta confortavelmente e deixa o batente pesado para a irm?
- Um tipo bem superior ao seu, Brett! E pare de criticar Magnus, seno eu... No entende que ele...
- Ele o qu?
Brett se adiantou e ajudou-a a carregar o fardo, levando-o para dentro do quarto.   Uma  camisa e  uma cala de  brim atiradas  sobre  a  cama trouxe-!he a lembrana 
do corpo dele.
-  E ento? Voc ia me dizer alguma coisa  sobre seu irmozinho querido - Brett tornou a falar. - O negcio dele  manha! No pode levantar uma palha enquanto a 
irm pe a mo na massa...
- Eu no...
Brett  impediu-a de falar,  conduzindo-a  at o espelho e  forando a examinar a imagem refletida.
-  D uma olhada na sua cara, no seu aspecto, e depois me conte o que est vendo!
Catherine se achou lamentvel. Estava completamente desgrenhada, com a pele esbranquiada e olheiras arroxeadas... Os olhos estavam cansados e a boca plida!
-  No costumo usar maquilagem - defendeu-se, querendo desviar o assunto. - Isso o incomoda? Que espera de mim? Que eu me emboneque como... como uma rvore de Natal, 
s para agrad-lo?
- Voc est exausta. Que est acontecendo? No acha o trabalho aqui na ilha pesado e barato demais para voc?
- No  estou  exausta  coisa  nenhuma!  - protestou, mentindo.  - Estou tima!  Talvez voc  que no esteja acostumado a  olhar para mulheres    sem    maquilagem. 
Talvez    queira   que   eu    passe    batom, p-de-arroz e uma sombra nos olhos, para ficar corada...
- Se quer ficar corada, posso ajud-la...
Brett parecia querer explodir de nervosismo, o queixo tenso, os olhos gelados. Inclinou-se e beijou-a bruscamente, punindo-a pelo crime que ela bem conhecia! Alguma 
coisa dentro dela palpitou, desafiando-a a.fugir. Mas ela continuava imvel, encantada.
No entendia o que desafiava sua fora de vontade. Ela mesma parecia no existir, entregue  explorao que as mos dele faziam-lhe nas costas, passeando incansavelmente, 
provocando sensaes nunca experimentadas. Instintivamente, viu-se procurando tocar o corpo de Brett, retribuindo-lhe o beijo com paixo. Os lbios dele separaram-se 
dos seus para lhe acariciarem as orelhas, fazendo-a gemer, enquanto as mos fortes tocavam-lhe o pescoo.
- Olhe-se no espelho agora, Catherine - ele sugeriu.
As palavras trouxeram-na de volta a realidade. Brett separava-se dela e a colocava de novo em frente ao espelho. Seus lbios estavam vermelhos e midos, ligeiramente 
dilatados.
Tocou-os com dedos trmulos e teve uma repentina exploso de choro. Ela era vulnervel, e Brett tinha abusado daquela vulnerabilidade.
-  Muito bem, voc j se divertiu bastante. No perca tempo, Brett. Nem eu nem Magnus vamos permitir a construo da base petrolfera. A no ser que tenhamos absoluta 
certeza de que trar benefcios aos ilhus.
- Muito filantrpica - murmurou  Brett -,  mas no acredito em voc. Catherine permaneceu paralisada, o rosto de novo empalidecido.
-  Vou dizer uma coisa em que voc acreditar. Meia dzia de beijos baratos no sero suficientes para me convencer a me atirar a seus ps!
Mais tarde, deitada na cama, pde pensar na natureza da emoo que o toque de Brett despertou nela. Seria fcil dizer que no era nada, ou, antes, que era simplesmente 
atrao sexual, breve e inconseqente. Mas, no fundo, no fundo, dentro dela, sabia que era bem mais que isso! Nenhum homem a tinha tocado como Brett!
E Magnus? Precisava pensar nele! Desejava ardentemente que Brett desaparecesse de sua vida, mas, em nome de Magnus, tambm desejava que ele nunca fizesse isso... 
As lgrimas corriam pelo rosto dela.
Quando acordou, sentiu que algo estava errado. Era dia e ao lado da cama viu uma xcara de ch frio. No tinha colocado o relgio para-despertar  e   dormira  demais, 
sem   dvida!   Levantou, correu   para   o banheiro e tomou um banho, vestindo em seguida jeans e suter.
Magnus ainda dormia e dificilmente teria posto a xcara de ch no seu quarto. Quando chegou  cozinha, sentiu-se ainda mais indisposta. Ouviu gargalhadas e farejou 
no ar a fritura de bacon, o bacon que tinha guardado para fazer a omelete para eles levarem. Os lanches! exclamou, empurrando a porta bruscamente.
Ao entrar os homens silenciaram e a cumprimentaram respeitosamente. Sobre a mesa, havia uma pilha de torradas e Brett estava em frente ao fogo, manipulando a grande 
frigideira e pondo no prato uma omelete.
- Quer um pedao? - perguntou, sem se voltar para olh-la. Catherine se  encostou  mesa, como que buscando apoio para no cair desmaiada.
- Voc usou todo o bacon! - disse, fingindo calma.
- Usei?
-  Tinha guardado para fazer o lanche de vocs!
- Puxa, teria sido maravilhoso, no  mesmo, pessoal? Voc no  vegetariana, ?
- No est gostando dos meus pratos?
-   voc cozinha muito bem, Catherine. Mas com excesso de delicadeza. Nunca ningum lhe falou sobre uma coisa que se chama carne?
- Que posso fazer? Quer que eu v ao aougueiro mais prximo e , encomende meia dzia de fils? Poderia fazer isso, se Lerwick no ficasse to longe!
Disparou para fora da cozinha antes que os nervos estourassem. Droga! exclamou para si mesma. Como vou preparar o lanche deles agora? Foi para a biblioteca obcecada 
por essa questo. Pouco depois. Brett entrou, ameaador.
- Se quiser me deixar morrer de fome. tudo bem, mas meus homens precisam de boa alimentao, de vez em quando gostam de beber. A nica coisa que vale a pena aqui 
so as acomodaes! E por um preo razovel! - Preo razovel?, pensou Catherine, sem entender o que Brett queria dizer com aquilo. - O que vocs dois tm? - ele 
continuou, furioso. - dio? Esse seu irmozinho...
- No    me    venha    criticar   Magnus    outra    vez!   -    exclamou,    interrompendo-o.   -   Voc   no    ningum  para julg-lo!   Quanto s refeies, 
o que est pensando? Isto aqui no  nenhum restaurante!
De novo aquela vontade de esbofete-lo, de mago-lo, para faz-lo engolir aquelas  palavras  cruis.   At aquele momento vinha dando  o melhor de si, no vinha? 
O corpo dolorido de carregar turfa, as mos maltratadas de  tanto mergulh-las  na gua!  Magnus  no saa de seus pensamentos,   suportava   tudo  por  ele,   e 
agora  Brett  Simons   ousava ofend-los,  ousava julgar,  simplesmente porque  seus  subordinados no tinham comido carne!
- A propsito -- recomeou ele, aproximando-se -, pare de perseguir Tex, Ou acha que no percebi que o maltrata? O pobre do rapaz deve estar com saudade do lar. 
 o primeiro emprego dele e no tem culpa de voc regular a comida!
Brett estava perto o suficiente para Catherine sentir o calor e o cheiro do corpo dele. Era capaz de ser compreensivo com o americano, mas no com Magnus! Uma dor 
atravessou seu peito. Avanou para ele desafiadoramente.
-  Ningum o est forando a ficar em Falia. Por que no vai embora para sempre?
O corao de Catherine pulsava com fria e Brett captou perfeitamente essa emoo. Agarrou-a pelos ombros e forou-a para frente, at que os seios dela tocaram-lhe 
o peito exposto pela camisa de l entreaberta. Catherine sentiu raiva e desejo ao mesmo tempo! Pousou o olhar sobre o pescoo bronzeado e msculo, esperando que 
ele no percebesse.
-  Ento  assim? - disse ele, com suavidade. - Essa misria de comida e essa m recepo so para fazer a gente se mandar daqui? Gostaria de saber por que tanto 
dio! Antes de saber que eu chefiava a equipe, voc tinha concordado com tudo!  Qual   o problema,  hein? Naturalmente no espera que seu irmozinho v querer lavar 
sua honra quando souber que dormimos juntos em Lerwick? Ele seria absolutamente incapaz disso!
Brett tinha a capacidade de enfurec-la. Seus olhos brilharam lanando chamas, e ela j no via mais nada com preciso. No se controlou: levantou a mo num movimento 
instintivo, mas a mo forte de Brett a segurou. Catherine s pde deixar as lgrimas escorrerem silenciosamente.
- No, no...   nunca faa isso  -  alertou   ele.   Catherine  tentou escapar, mas Brett trouxe-a para mais perto do corpo dele. - Por que tanta  ansiedade  para 
fugir de  mim? - Brett continuou,  passando os braos em torno da cintura dela. - No diga.  Acho que sei...  Quer esquecer a qualquer preo aquela noite em que 
se viu forada a dividir a cama com este homem estpido, no ?
Catherine, pela primeira vez ficou realmente assustada. Nas outras vezes em que chegaram a discutir, Brett nunca tinha perdido o controle daquele jeito. Seus olhos 
estavam dilatados como se fossem os de um animal raivoso.
- J  hora de voc saber como se comporta um homem estpido, quando o provoca ao extremo - ele anunciou. - Vou lhe dar um motivo concreto para querer fugir de mim!
Ento ele a beijou quase com violncia e a abraou quase at sufoc-la, as mos acariciando seu corpo por debaixo do suter, passando em suas costas, depois chegando 
aos seios.
Inutilmente, Catherine tentava se soltar, pois Brett tinha imobilizado seus braos por detrs das costas com uma s mo. Estava completamente a merc dele!  Ningum 
havia explorado seu corpo daquele modo, to intimamente!
Resistir apenas resultava em dor e cansao. A lngua dele forava-a a abrir os lbios, explorava-lhe a boca selvagemente. Seu nico recurso era feri-lo 
Brett repentinamente afastou os lbios, o sangue tingindo-os alarmantemente.
- Sua...
- Voc mesmo pediu isso! - ela replicou com firmeza, - Devia me agradecer por ter sido moderada!
Brett afastou-se e rumou para a porta, que, para surpresa deles, abriu-se para dar passagem a Mac. Com os olhos molhados de lgrimas, Catherine quis correr para 
os braos dele, mas no fez isso porque o achou cansado e abatido.
Brett lanou-lhe um rpido olhar e saiu sem se voltar para trs.
-- Os gelogos chegaram - Mac comentou. - Como est se dando com eles?
Catherine limpou os olhos, a tempo de Mac no reparar nas lgrimas.
- Esto reclamando da comida. Dizem que  insuficiente. O que voc tem, Mac?
- Minha secretria adoeceu e no posso demorar. Preciso ir para a plataforma. Cat, minha querida, voc parece cansada. Est fazendo tudo sozinha, no?
- No tenho outra sada. No posso arrumar algum para me ajudar de graa. Trouxe algum mantimento?
- Oh, desculpe, querida, mas no foi possvel. O helicptero estava abarrotado de coisas... E Magnus, como est indo?
Contou-lhe rapidamente sobre a bebedeira do irmo, perguntando se no   seria   aconselhvel   que   os   gelogos   partissem.    - Magnus tem piorado, Mac... 
- E esse tal Brett Simons, o chefe da equipe... Esse que saiu daqui agora.   Viu-me trazendo Magnus bbado, Oh, Mac, Magnus  to vulnervel, to displicente consigo 
mesmo...
- D tempo ao tempo, Catherine.  Quanto a algum para ajudar... Cat, voc no pode continuar assim, seno vai adoecer.  Por que no explica tudo para eles? Tenho 
certeza de que a construtora cobriria as despesas...
- Brett Simons falou em pagamento das acomodaes, mas no sei nada sobre isso. No recebemos correspondncia faz trs semanas!
- Pea a ele que descubra o que est havendo - Mac sugeriu. Pedir ajuda a Brett Simons? Era prefervel morrer!
Bom, tenho de ir - Mac anunciou. - Telefono  noite, caso descubra uma maneira de lhe mandar os mantimentos. Estranho, a prpria companhia devia ter se encarregado 
de organizar isso... Devem saber que esta ilha no est preparada para a vida moderna...
Quando Mac se foi, Catherine examinou a despensa da cozinha. Eles tinham acabado com todo o estoque. Restavam apenas duas latas de carne moda, batatas, ovos e farinha 
de trigo! Se Brett Simons queria carne, ele a teria. Mesmo que precisasse morrer para consegu-la.
Antes que mudasse de idia, entrou no jipe e rumou para o porto. No havia sinal de Findlay, o que foi um grande alvio. Se ele estivesse l, no ia deix-la sair 
naquele mar bravo. Nenhum pescador concordaria com seu plano. Morag James, cunhada de Findlay, estava tecendo junto da janela.
- Findlay est na colina -- gritou para Catherine. - Quer que eu d algum recado para ele?
- No  preciso - respondeu Catherine  distncia, balanando a cabea.
O vento tinha diminudo, mas era uma trgua temporria, Catherine sabia. Encorajando-se, disse a Morag o que pretendia fazer.
- Catherine, no saia com o barco de pesca, no! - gritou Morag, vendo-a vestir a capa impermevel. - Vai cair uma tempestade!
-  Tenho que ir, Morag - respondeu sem pensar duas vezes. - J sa com ele com tempo pior que este!
Antes que a velha senhora pudesse dizer mais alguma coisa, Catherine correu para o barco e o soltou, acionando o motor em seguida.
J longe da pequena enseada, as ondas estouravam impiedosamente contra o casco e invadiam a cabine descoberta. O vento assobiava assustadoramente e pela primeira 
vez Catherine percebeu que no havia gaivotas sobrevoando o oceano. As rochas pontiagudas que serviam de referncia para o ponto em que comeavam as guas profundas 
estavam praticamente cobertas pelas ondas. Mar e cu formavam um s vazio cinzento.
Quando o vento atingiu o mximo e o pequeno barco comeou a balanar e a ranger. Catherine imaginou que nunca conseguiria alcanar Lerwick. Tanto esforo para que 
Brett Simons comesse a carne que tanto reclamava! Gargalhou histericamente enquanto lutava contra uma onda gigantesca que quase cobrira o barco e ento, quando estava 
pensando que tinha ultrapassado o local de correntes fortes, o perfil familiar de Lerwick apareceu, o porto envolto por uma nvoa esbranquiada.
Finalmente chegou e correu para o banco, tirando o pouco saldo ainda disponvel. O dinheiro acabou logo depois de comprar os alimentos essenciais: alguns quilos 
de carne fresca e verduras, a um preo que quase a deixou sem flego. Comprou tambm algumas bebidas. Dificilmente Brett Simons teria condies de fazer alguma queixa!
Caminhou protegendo-se contra a ventania e com alvio voltou ao barco. Quando estava para guardar as compras em lugar seguro, viu uma figura conhecida, o rosto endurecido 
e o olhar desafiador, e um arrepio subiu pela espinha. Catherine linha medo dele!


                                  CAPTULO V


Seu primeiro impulso foi fugir, mas, em vez disso, preferiu comear a tarefa de guardar as compras. Quando foi pegar a ltima caixa, a mo dele segurou a sua.
-  Brett! Que est fazendo aqui'?
-  Nada de perguntas. - de disse, pegando a caixa e levando para o barco. - Conversaremos mais tarde. Por ora, vamos fazer o possvel para chegar em Falia inteiros, 
est bom?
Ela o acompanhou para dentro do barco e ele ligou o motor de popa. Estava nervoso, sim. zangado com ela. mas havia qualquer coisa diferente; talvez mais perigoso 
mais explosivo.
Brett no fez a menor sugesto de lhe tomar o leme, observando-a de braos cruzados enquanto o barco se afastava do porto e entrava em mar aberto.
- Como...   como soube que eu estava em Lerwick?  - comeou Catherine. no suportando o silencio entre eles. Arrependeu-se logo de ter feito a pergunta, pois recebeu 
um olhar fulminante e ouviu-o falar com um tom de voz atemorizante.
- No foi difcil. Por aqui no existem tantas mulheres estpidas a ponto de desafiarem o mar nessas condies.  Mas voc parece, vive sempre desafiando as leis 
naturais.
No respondeu, porque uma onda golpeou um dos lados do barco e o arrastou para dentro de uma corrente que ameaava jog-los contra as rochas. Com o corao nas mos, 
Catherine se esforou por manter o controle do barco, Brett aproximou-se por trs envolveu-a e pegou no leme. ajudando-a  conduzir a embarcao de volta para o curso 
correio.
- Obrigada disse, quando se viram livres da corrente.
- Por qu.' O interesse era meu em no morrer espatifado por causa; de alguns bifes...                                     
Era a primeira referencia que ele fazia aos propsitos da viagem dela a Lerwick.
- Como descobriu que eu tinha sado de Falia? - arriscou.
- Vi o barco.   Deixou todo   mundo   apavorado.    Magnus quase  enlouqueceu, Findlay nem sabia o que fazer. Liguei para a plataforma e pedi que me pegassem de 
helicptero e me trouxessem para Lerwick. Por que no me contou tudo sobre Magnus?  - exigiu   com   brandura, surpreende tido-a com a pergunta. - E sobre o dinheiro? 
Achava que eu tinha o poder de adivinhar?
- Pensei que j soubesse.
- Oh, compreendo! A meu ver, voc estava tirando proveito em me  deixar  no  escuro,  em  me  deixar acreditando  todo o  tempo que  nos detestava.  Mas simplesmente 
no tinha comida para nos oferecer! Que delcia deve ter sido para voc me transformar numa grande vtima. E Magnus? Fui bom para voc eu tax-lo de bbado? Por 
qu, Catherine? Por que?
- Pensei que voc fosse incapaz de compreender... Estava confusa. Como ele tinha sabido de tudo? Na certa, Magnus e Findlay no lhe contariam!
- No foi isso que Mac me explicou - Brett disse to calmamente, que Catherine no teve certeza de que o tinha escutado bem. - Ele estava  no helicptero que foi 
me buscar - acrescentou em tom normal de  conversa, como se no falasse de coisa importante. - Tivemos um papo muito interessante...
Havia alguma coisa de provocativo naquelas palavras e ela sentiu a boca seca. Felizmente o barco exigia concentrao, assim no precisava  encar-lo.
- Voc de fato achava que eu era o tipo de sujeito que ia desprezar  Magnus simplesmente porque ele foi vtima de circunstancias? Meu Deus, como sabe magoar as pessoas! 
No entende que o que aconteceu com ele  o fantasma que ronda todos ns? S poderia zombar dele se fosse desumano e insensvel!  assim que me v? Como um homem 
oco, um macho bruto e nada mais?
- Magnus no queria que descobrissem o segredo dele.
- Entendo  essa  atitude,   sou  capaz  de  apoi-la,   mas  no estamos discutindo os sentimentos dele. Estamos discutindo os seus sentimentos. O que est em questo 
 o julgamento que voc fez de mim. Mac disse que voc odeia todos os homens do petrleo.  verdade?
- Est me perguntando ou est afirmando? Se no me engano, no sou a nica pessoa por aqui a fazer julgamentos. Voc veio se meteu na nossa vida, julgou-nos sem 
nos conhecer, tentou ridicularizar Magnus, e acha que eu no precisava proteg-lo? Mac no tinha o direito, nenhum direito, de contar tudo para voc! -- concluiu, 
inflamada.
Brett tomou de novo o leme por trs, para corrigir o rumo. Enlaada pelo brao quente, imediatamente sentiu o desejo de se entregar aos carinhos dele. Por um momento, 
imaginou como as coisas seriam diferentes se ao menos ele correspondesse aos seus sentimentos.
- Mac resolveu contar,  porque sabia que eu me disporia a ajudar Magnus.
- Ajudar Magnus? E por qu?
- Porque sou um ser humano, ora bolas! Porque eu poderia estar no lugar dele!  Porque  natural do homem ajudar seus semelhantes!  Oh, Catherine, que prazer voc 
tem em me odiar!
Odi-lo? Se ele soubesse...!
Ela calou de repente e Brett sorriu, malicioso, falando apenas do clima e das correntes perigosas do oceano, enquanto manobrava com percia.
Estavam chegando  segurana da enseada de Falia quando uma ventania violenta sacudiu o barco.
- Cuidado! - gritou para Catherine,
Uma onda ergueu-se e os atingiu em cheio. No fosse a presso dos braos de Brett em tomo do corpo de Catherine, ela teria sido arrastada para fora e engolida pelas 
guas.    
Inteiramente molhada tremendo de frio. jogou-se nos braos de Brett.
- Obrigada!
- Machucou-se? No precisa me agradecer...
O que  a  machucava  era  ser tratada  com  indiferena,  quando,   na verdade, no queria se afastar dele nunca mais. No havia ningum no porto esperando por eles. 
Desceram rapidamente e Brett ordenou que ela corresse para o jipe enquanto descarregava as mercadorias e transportava para o veculo.
Com as roupas molhadas, a gua escorrendo pelas pernas de modo a formar pequenas poas debaixo dos ps, no piso do jipe.  Ligando o motor, Brett lanou-lhe um olhar 
compreensivo.
Mal chegaram a casa. Catherine abriu a porta e, sem esperar por ele, correu para dentro da cozinha, defendendo-se da ventania. A casa parecia vazia. Brett entrou 
a tempo de impedi-la de colocar mais turfa no fogo da lareira que ameaava apagar,
-  Que   est   fazendo'.  -  disse,   pondo   as  caixas   sobre   a   mesa. Arrancou a turfa das mos dela. - No pode sossegar um pouco? No est em condies 
de fazer esforo, ou j esqueceu que quase foi tragada pelo mar?
- J no agradeci? Que quer mais, sangue?
Preferia desafiar Brett a cuidar de si mesma, as roupas encharcadas grudadas no corpo. Impacientemente, ele a tomou nos braos e a levou para cima. Quando passaram 
pela biblioteca. Catherine ouviu vozes e temeu que a vissem carregada com tanta intimidade.
Brett escancarou a porta do quarto dele, colocou-a sentada numa cadeira e avivou o fogo da lareira com a turfa. Fraca demais, Catherine teve vontade de gritar e 
desaparecer dali.
- Beba isso.
Ao beber o usque, a ferida na boca ardeu, arrancando-lhe lgrimas.
- Eu fiz isso? - perguntou ele tocando o lbio machucado.
- No  nada - ela mentiu, sentindo que o toque dele era como um blsamo.
- Voc est ensopada!
-  Preciso trocar de roupa. Seus homens vo querer comer e...
- No saia da!
A ordem enrgica a fez silenciar. Brett foi at a cmoda e tirou uma enorme toalha de banho. O que ele ia fazer?
Sem lhe dar tempo de reclamar. Brett voltou a cadeira para o fogo, puxou o suter dela pela bainha e o tirou, deixando-a de suti. Alarmada Catherine o viu desatar 
o cinto do seu jeans.
- Brett, que est pensando em fazer?
-  No se incomode, Catherine. J vi um corpo de mulher antes -comentou, arrancando-lhe as calas. -  tempo que algum aqui dentro cuide de voc!
Colocando-a de p, envolveu-a com a toalha felpuda e comeou a enxug-la com rapidez. Aos poucos, Catherine foi sentindo o calor da frico da toalha. A cada toque 
impessoal de Brett, porm, seus sentidos pareciam despertar, confirmando-lhe unia paixo que no podia mais negar.
O efeito do usque que tinha tomado dava-lhe a sensao de estar flutuando em nuvens, num mundo distante das preocupaes. Deliciando-se aceitou passiva e obedientemente 
os cuidados de Brett. Sorriu secretamente examinando o rosto dele a curva sensual do lbio inferior, as sobrancelhas grossas e negras, o queixo bem definido e a 
pele bronzeada. Desejou toc-lo! Desejou enterrar os dedos naquele cabelo negro, traz-lo para mais perto e sentir o calor e o gosto dos lbios.
Mal percebeu que ele tinha acabado de enxug-la e a estudava minuciosamente, as mos deslizando por debaixo da toalha...
Quando ele deu a volta e parando atrs dela, comeou a soltar o suti, foi que ergueu o rosto para olh-lo. Mas ento suas bocas j tinham se encontrado, os lbios 
quentes e provocativos, e Catherine acabou por esquecer todas as promessas de nunca mais voltar a se trair! Passou os braos em torno da nuca de Brett e o acariciou.
Ele a ergueu devagar, a toalha escorregando quase imperceptivelmente, sentou-a e contemplou o corpo iluminado pelo fogo. Dessa vez. Catherine no sentia vergonha 
por estar sendo observada. Ao contrrio, o corao pulsando. O corpo' todo excitado olhou-o bem nos olhos e captou neles o brilho do desejo.
- Voc  linda! - Brett murmurou com suavidade e levantando beijou-a no rosto com delicadeza. - E um crime esconder-se debaixo de tantas roupas! Se eu pudesse, obrigaria 
voc a andar nua pela casa!
Devorava-a com os olhos, emitindo ondas de desejo.
- Eu morreria de frio - replicou, sonhadora, participando do jogo.
- Mas ento eu descobriria uma maneira de aquec-la... como agora.
Abraou-a, fazendo-a sentir a vibrao do corpo quente e msculo. Catherine deslizou as mos para dentro da camisa dele e acariciou-lhe os msculos dos ombros. Desceu-as 
e, com um gemido, queixou-se dos botes. Brett murmurou alguma coisa e, desabotoando, arrancou a camisa, tia suspirou,    satisfeita,    aproximou    o    rosto 
do    peito    e    com    beijos adorou-o, enquanto as mos dele excitavam-lhe os seios, revelando-lhe um mundo nunca antes experimentado.
-  Espere um pouco, querida, espere um pouco - sussurrou Brett, ofegante, enquanto Catherine deitava-se, chamando-o impaciente. - Dessa vez vamos usar a cama de 
casal, est bem?
Catherine imoblizou-se, tomada por uma onda repentina de repulsa. Que estava fazendo ali? S podia ser efeito do usque que Brett lhe tinha dado! No fosse isso, 
como explicaria o completo abandono? Afinal, que pretendia aquele homem? Que ela e Magnus concordassem com a base petrolfera?
Estendeu os braos para evit-lo, num gesto de desespero e medo.
- Que foi? Mais um castigo por querer dormir na mesma cama com voc?
- No  nada disso...
- O que  ento?
Catherine levantou e vestiu as roupas molhadas.
- Por que insiste em ficar longe de mim?
- Talvez porque eu saiba das suas intenes,
- Que intenes?
No podia voltar atrs, refletiu. Durante alguns minutos, nos braos de Brett tinha conhecido o paraso, mas estava se enganando se pensava que aquela experincia 
pudesse ir alm do passageiro. Brett queria conquist-la, e para isso usava de todos os recursos possveis!
- Ouvi voc dizer aos seus homens que ia encontrar um jeito de resolver a questo, de convencer a mim e a Magnus a respeito da base.
- Ouviu, ? E acha que eu usaria esse mesmo mtodo com seu irmo? Pensa que meu mau-caratismo no tem limites?
Enquanto falava, vestia a camisa, o rosto endurecido.
- Saia j daqui - ordenou, abrindo a porta. - Se voc tirasse esses culos escuros  mentais  que  usa,  talvez  pudesse  se  transformar numa mulher de verdade, 
mas duvido que consiga isso! Se no aprender a confiar nos outros, vai viver o resto da vida vendo ms intenes por trs de todas as palavras e todos os gestos. 
Seu irmo pelo menos tem motivos para viver acuado. Mas e voc, Catherine, quais so suas desculpas?
- No adianta,  Brett - replicou, a voz mal saindo. - Ns dois sabemos que voc tem interesses que vo alm da confiana e do amor.
Brett sorriu levemente quando Catherine passou por ele em direo ao corredor.
- Obrigado. Voc me salvou, impedindo-me de cometer o maior erro da minha vida! -- ele disse.
Catherine entrou no quarto com os olhos cheios d'gua. Ento era isso o que significava fazer amor com ela? O maior erro da vida dele?
Embora quisesse desabafar para ver-se livre de todas aquelas emoes sentidas, no podia faz-lo. Precisava dar de comer a cinco homens, precisava cuidar da casa. 
Lavando o rosto com gua fria, aplicou uma sombra nos olhos para esconder os sinais de choro.
Os bifes eram grossos e suculentos, e at mesmo Magnus fez um elogio quando Catherine os serviu junto com batatas fritas e uma salada deliciosa. Para a sobremesa, 
tinha comprado frutas, e Tex suspirou de satisfao quando viu seu prato retirado e substitudo por outro, com queijo e biscoitos.
- Isso sim  que  jantar! - comentou, entusiasmado.
Catherine forou um sorriso. Brett at aquele momento tinha se comportado como se ela no estivesse presente.
- Fico contente por estar satisfeito - respondeu, automaticamente. Naquela noite  atmosfera a mesa estava mais agradvel; os homens se esforavam para envolver 
Magnus nas conversas e, embora falasse muito pouco. Catherine notou que ele parecia mais corado e voltara a ter apetite. Sugeriu servir o caf na sala e agradeceu 
a Tex quando ele se ofereceu para lavar a loua. Observou que havia uma pilha de turfa atrs da porta e suspeitou que Brett no era o nico, a saber, dos problemas 
por que passavam. Se desconhecesse as intenes dele, por certo teria ficado agradecida.
Catherine levou o carrinho at a sala. Tex abriu a porta como um verdadeiro cavalheiro. Quando serviu o caf a Brett, o brao dele raspou no dela. Catherine empalideceu, 
as pernas tremeram.
- Est se sentindo bem, Cat? - ele perguntou, com malcia.
O telefone salvou-a da resposta. Mac cumprimentou-a, aparentemente se comportando como se no a tivesse trado.
- Ainda posso me considerar convidado para passar o Natal com vocs?
- Pode, sim, Mac, embora no o merea - Catherine disse, sem falar no nome de Brett na frente de todos.
- Fiz aquilo por sua causa, Cat - Mac explicou. - E por causa de Magnus. Ele mostrou-se extremamente compreensivo. De fato, prometeu ajudar vocs dois.
Sim, ele far isso, para que no oponhamos nenhuma resistncia construo do terminal, pensou Catherine.
- Fiona vir passar o Natal comigo. Posso lev-la junto? - Mac que saber.
- Claro, estamos dodos para v-la - disse com sinceridade.
- Sabia  que  Brett  Simons     dono  da construtora  contratada  para construir o terminal? Uma conquista formidvel, para um homem que comeou como engenheiro 
civil - Mac falou antes de desligar.
Quando ps o fone no gancho, as mos dela estavam tremendo. Ali estava a prova, se  que precisava de prova, do comportamento de Brett. No era de estranhar que 
se mostrasse to ansioso para que o projeto se concretizasse' Fez uma expresso que no passou despercebida de Magnus.
- Est tudo bem. Cai? - perguntou o irmo.
- Tudo timo - replicou,  enfaticamente.  - Era Mac.   Vir com Fiona no Natal. - Voltou-se para Brett. - Quando vocs vo partir? Naturalmente vo passar o Natal 
com suas famlias.
- Meus homens iro. Quanto a mim no tenho famlia. Se no fosse incomodo, gostaria de ficar aqui. Espero terminar essa pesquisa o mais depressa possvel. Pagaremos 
extra pelos aborrecimentos  claro,
Ele no podia ter sido mais frio e distante. Pois, agora no tinha mais necessidade de conquist-la com seus encantos, pensou Catherine amargurada.
Para sua surpresa, Magnus adiantou-se na resposta.
-  Seja bem-vindo, Brett.
- Obrigado  -  ele  respondeu,   lanando   um  olhar  sugestivo  para Catherine. -  uma pena no dispormos de um mapa da ilha detalhado. Gostaria de saber algo 
mais sobre ela, antes de voltar a mergulhar.
O olhar de Catherine voltou-se para a escrivaninha, onde o irmo guardava os mapas.
- Tenho alguns mapas -- Magnus falou, com certa hesitao -, mas no sei em que podero ser teis...
Meia hora mais tarde, os cinco homens entregavam-se  anlise dos mapas abertos sobre a escrivaninha. Magnus fazia comentrios e dava sugestes, enquanto se discutiam 
os planos do terminai. Em todos aqueles meses, era a primeira vez que Catherine via o irmo to envolvido com alguma atividade.
- Puxa! - exclamou Alex, um tanto admirado. - Voc conhece mesmo a ilha!
Isso bastou para Magnus retrair-se imediatamente.
- Se me do licena, agora preciso ir dormir - ele se desculpou, levantando. .
Estava rompida a parede que Magnus tinha erguido em torno de si mesmo. Catherine viu-se obrigada a reconhecer que Brett, em apenas um dia, tinha conseguido mais 
do que ela, em tantos meses!
Quando comeou a recolher as xcaras, Brett segurou-lhe . o brao, desafiando-a com o olhar.
- Est com dio de mim porque tentei arrancar Magnus de dentro da casca?  natural que um homem deseje a aprovao de um igual!
- Um igual? Ele jamais pensaria isso de voc, se soubesse por que est procurando se aproximar!
Brett soltou-a sem dizer uma palavra.
Catherine saiu sem se voltar e foi direto para a cozinha, onde se ps a lavar os pratos e os talheres, consciente da dor profunda que sentia e que aumentaria mais 
e mais durante toda a noite... Reviveu com tristeza os momentos em que tinha estado nos braos de Brett e num passe de mgica viu de novo aqueles olhos iluminados 
que a desejaram. Sim, Brett a tinha desejado! Ainda que por um instante. Um instante e nada mais!
Na manh seguinte, durante o caf. Catherine ouviu os homens comentarem que Brett ia mergulhar na enseada. O vento tinha amainado e as previses atmosfricas indicavam 
um clima razoavelmente agradvel. Mas mesmo assim, ao contemplar as guas frias do fiorde, sentiu um certo temor por ele.
- Vou precisar de outro homem - comentou  Brett,  com o  rosto tenso. - Tex no est habituado s guas geladas. Alex vir comigo. Isso significa que, se vocs ficarem 
de olhos em ns dois, no haver ningum para cuidar dos equipamentos.  - Lanou um olhar para Magnus,  do outro lado da mesa. - Voc conhece bem a rea. Magnus. 
J nadou ou mergulhou nessas guas'.'
Catherine respirou com dificuldade, percebendo a resistncia do irmo cm dar uma resposta.
-  Um pouco...
Um pouco! Catherine lembrou do vero em que ele explorou todo o litoral com a ajuda dos velhos equipamentos que tinha comprado.
- Aceita dar uma mo para a gente? - arriscou Brett. Dificilmente Magnus poderia recusar um pedido to franco.  Relutou alguns    momentos,    tentando    se    
desculpar,    e    ento,    como    que reconhecendo a inutilidade, deu de ombros e concordou timidamente.
Parecia um homem destinado a enfrentar um fuzilamento, pensou Catherine. penalizada. Plido, Magnus saiu e voltou pouco depois vestindo roupas  prova d'gua. calando 
botas e segurando cordas pesadas.
- Bom, esto prontos? Catherine. podemos usar o jipe? - perguntou Brett, sem olh-la.
Era como se a intimidade entre eles nunca tivesse realmente existido e tivessem se tornados dois estranhos. Os olhos frios pareciam facas de ao enfeitadas no seu 
corao, mas ainda assim tentou responder e, ao entregar-lhe as chaves do jipe, abriu um sorriso.
Seus dedos se tocaram levemente, o suficiente para acender dentro dela uma chama que nunca poderia ser apagada.
Quando os homens partiram, subiu para arrumar as camas de Fiona e Mac,  No quarto de Brett parou e ficou  um instante olhando a cama solitria.   No  travesseiro 
ainda  havia  a  marca  da  cabea  dele.   Como sonmbula,   passou  os   dedos   com   suavidade   sobre   a  reentrncia,   as lgrimas escorrendo pelo rosto. 
Dobrou o suter que estava jogado e, instintivamente,  levou-o ao  nariz,  esfregou no rosto.  Tinha cheiro da colnia dele.
Catherine sabia que era desejo aquela necessidade que vinha do mais fundo de seu corpo! Como poderia sobreviver at o Natal com Brett dentro daquela casa? No sabia!
J preparava o jantar na cozinha quando ouviu o rudo do motor do helicptero. Terminou rapidamente o que estava fazendo, vestiu a capa impermevel e saiu apressada.


                                      CAPTULO VI


Dois homens vestindo macaces desceram do aparelho, o logotipo da companhia de petrleo impresso no bolso. Um deles abriu a parte traseira do helicptero e, com 
a ajuda do outro, tirou uma geladeira nova em folha.
- Onde quer que a gente ponha isto, senhorita?
- No pedi uma geladeira -- respondeu Catherine. espantadssima. Mas os dois homens j estavam a caminho da cozinha e s depois de colocarem a geladeira no cho 
voltaram a falar.
- Esta ilha  Falia, no ? - perguntou um deles, brandindo uma folha de papel. - A senhorita se chama Catherine Peterson, no se chama? Brett Simons disse pra gente 
andar logo porque a senhorita tinha pressa. No helicptero ainda tem um gerador novo e mantimentos.  Para encher a geladeira, suponho. Bom, agora, onde quer que 
a gente ponha tudo?
Ainda surpresa, Catherine apontou a despensa. Como Brett ousara fazer aquilo? Como podia humilh-los daquele modo? Por um triz no os mandou levar a geladeira e 
tudo o mais de volta para Lerwick, mas os homens trabalhavam depressa, agora carregando o gerador para dentro de casa e se oferecendo para verificar se estava funcionando.
Pela conversa deles. Catherine percebeu que tinham Brett em alta considerao. Pena que sua opinio no fosse a mesma.
As caixas com alimentos continham carne, verduras congeladas, um enorme peru, algumas latas, macarro. Brett tinha pensado em tudo, refletiu Catherine. Sim, em tudo, 
menos que a ofendia se intrometendo daquele modo.
Mais tarde, quando os homens do petrleo voltaram, Magnus e Brett conversavam . Ao entrar na cozinha, Alex sentiu cheiro de comida.
-- Carne assada, ? - perguntou. - E pudim de Yorkshire?
- Mais barata assada, cenoura e couve-de-bruxelas.
Brett no olhou para ela, o que muito a alegrou, porque sem dvida no saberia comer a raiva.
- Voc  acha provvel  que  a  enseada  seja  bastante  profunda  para permitir a entrada dos maiores navios petroleiros? - perguntou Brett a Magnus.
Catherine interrompeu-os pedindo a Magnus para cortar a carne.
Na hora da refeio ela comeu em silncio e levantou da mesa ao terminar para servir a torta de ma. Magnus tinha comido tudo e ainda atacou gulosamente a torta. 
Os homens falavam sobre a possibilidade de usarem explosivos para aprofundar a enseada, caso fosse necessrio.
- No aprovo essa idia - disse Brett, decidido. - Estamos aqui em Falia justamente porque poderemos realizar o projeto sem alterar as condies naturais.
E sem aumentar os gastos da companhia que lhe pertencia, pensou Catherine.
- Quer que eu lave os pratos, senhorita? -- props Alex.
- No, obrigada.
- Hoje  a minha vez - afirmou Brett, indo para a pia.
Os homens se retiraram para a biblioteca, deixando-os sozinhos. Enquanto lavava os pratos, Catherine fez o possvel para se concentrar, para no dar chance a Brett 
de lhe dirigir a palavra. Quando terminou a tarefa, comeou a fazer caf.
-- Muito bem - comeou Brett -. que foi que eu fiz desta vez?
- Ainda pergunta?
O tom de voz de Catherine denunciava que estava h muito tempo preparado para aquele confronto. Foi at a despensa, escancarou a porta e apontou para a geladeira.
- Com certeza voc pode explicar o que significa isto aqui! Brett a olhou com ar divertido.
-  uma geladeira... que mais posso dizer? Na verdade, eu pensei que...
-- Sei muito bem o que pensou, e a metade de Lerwick tambm deve saber a esta altura. Voc pensou que minha comida era pssima, no pensou? Pensou que seus homens 
estavam morrendo de fome! - Apertou as mos, com plena conscincia de que mais uma vez estava sendo injusta. - Bem... Ns dispensamos sua caridade. Ns no...
- Continue, Catherine...
Ela corou e parou de falar. Ele se aproximou sem hesitao.
- Imagino que em nenhum momento lhe ocorreu que eu estava pensando em voc, que estava querendo facilitar a sua vida! Ou ser que no enxerga que eu percebi muito 
bem o quanto vem trabalhando desde que cheguei a ilha?
Por um momento, ficou paralisada. As palavras exasperadas de Brett martelavam dentro dela. Sim, no tinha chegado a imaginar que a geladeira era para ela! No entanto, 
lembrava a todo instante quanto ele lucraria caso a base petrolfera fosse construda em Falia!
De repente, o desdm surgiu nos seus lbios, substituindo o temor e a dvida. Claro que fingiria sempre que era um presente, s para amenizar as coisas!
- No  minta,  Brett!  No sou  fcil  de dobrar!   Voc cometeu  um grande erro!
- Vejo que sim! - concordou com um trejeito. Deu-lhe as costas e abriu a porta da cozinha. - E voc achava que seu irmo  que tinha problemas!
Saiu deixando esta ultima frase no ar.
Catherine tremia tanto, que precisou sentar. Naturalmente tinha motivos para suspeitar daquela compra, mas Brett era um excelente ator, pensou, e por um momento 
quase se sentiu culpada.
-  Brincando com o novo brinquedo? - Magnus provocou ao pegar a xcara de caf que ela lhe ofereceu. - Brett me falou sobre a geladeira e o novo gerador.  E muita 
bondade da parte dele - acrescentou com sinceridade.
Desejava muito poder contar a Magnus toda a verdade, mas ao mesmo tempo no podia desapont-lo justamente quando comeava a se recuperar. Magnus acompanhou-a de 
volta  cozinha, pois Catherine pretendia encher de novo o bule.
- Por que no lhes pergunta se precisam de ajuda? - sugeriu, como se no desse a menor importncia  pergunta. - Voc conhece melhor que ningum a enseada e o seu 
equipamento de mergulho ainda est guardado.
Imediatamente Magnus fechou-se, fazendo-a lamentar a ousadia. Era evidente que o irmo ainda no estava preparado.
Quando entraram na biblioteca, os homens estavam discutindo sobre a enseada. Catherine constatou com surpresa que Brett conseguiu fazer Magnus participar da conversa 
com a maior facilidade.
- Deve ser um trabalho muito interessante - observou, na esperana de entusiasmar e encorajar Magnus.
- Muito interessante - completou Brett. - Por que no vem ver como trabalhamos? Podemos at arranjar alguma coisa para voc fazer.
- No, obrigada.
Catherine se afastou para recolher as xcaras, decepcionada com ela mesma por ter reagido to intensamente  sugesto de Brett. Como tinha podido ficar to cada 
por ele? Ele que no dava a mnima para ela?
Terminou o trabalho e comeou a preparar as coisas para a manh seguinte. Era tarde quando saiu da cozinha. Pensou que todos tinham se recolhido, mas ao passar pela 
sala de jantar ouviu algum falando e decidiu abrir a porta.
Brett falava ao telefone, de costas para ela, de modo que no percebeu sua presena.
- Ir para Sullon passar o Natal? Sim, eu sei que voc poderia vir me buscar. Acontece que no ser possvel. Hum-hum... Sabia que ia pensar isso. E que preciso terminar 
uma parte do servio e a coisa est mais complicada do que julgava...
Catherine fez um pequeno movimento e ele virou, flagrando-a. Para disfarar, entrou e foi at a escrivaninha de Magnus, como se fosse pegar algum papel.
- Olhe, Chris, tenho que desligar. Depois falo com voc.
Colocou o fone no gancho e em silncio filou Catherine, que lutava para no demonstrar o nervosismo.
-- Se quiser visitar seus amigos, no se deixe prender por ns - disse, na defensiva.
- Vocs no esto me prendendo.
O olhar dele a perturbava demais. Achou melhor sair.
- Deve ser bom para voc ter amigos em lugares como esse... Essas coisas  so importantes para um engenheiro civil que tem seu prprio negcio!
- Como sempre, voc est errada. Chris e eu somos amigos h muitos anos e nossa amizade no tem nada a ver com negcios. E no precisa ir embora, para ficar livre 
de mim. No a tocaria, ainda que fosse a ltima mulher sobre a face da terra. Gosto que minhas mulheres sejam realmente mulheres, no adolescentes inexperientes!
Catherine saiu em seguida, subindo as escadas com dificuldade e fechou-se no quarto. Mas, como sempre, o que Brett dizia grudava nos seus ouvidos, como se ele estivesse 
ali presente. Era preciso dormir para enfrentar mais um dia! Quanto tempo mais ainda teria de sofrer, antes de aquele homem deixar a ilha?
Amanheceu, e o dia estava frio e claro como todos os de inverno. No ventava forte. Os homens saram para trabalhar, mas Catherine se sentia inquieta. Magnus os 
estava acompanhando e Russet gemia deitado junto da porta da cozinha.
-  Est bem, Russet - disse. - Vamos sair, mas nada de ir longe. - E abriu a porta.
Na noite anterior, os homens tinham conversado sobre os planos para o Natal. Tex iria para os Estados Unidos, Alex ficaria com a irm em Dumfries, e Bill pensava 
em visitar alguns amigos em Londres.
Inconscientemente, Catherine viu-se caminhando em direo  enseada. Do alto do vale, avistou Magnus e Alex, duas figurinhas quase perdidas na vasta paisagem. Algum 
emergiu da gua e falou com os dois, gesticulando muito, despertando a curiosidade de Catherine. Um segundo homem de repente tambm saiu da gua e logo puxou o capuz 
da roupa de mergulho. Era Bill. Mas e Brett, onde estava?
A voz deles chegou-lhe dbil e indistinta, mas pelo modo com que olhavam para dentro da gua teve a impresso de que alguma coisa tinha sado errada.
Sem pensar em mais nada, desceu apressada a colina, tropeando e escorregando de vez em quando at chegar l embaixo. Russett corria  frente, fazendo saltar no 
ar pedras e pedaos de terra, chamando a ateno dos homens para ela.
-  O que est havendo? -- perguntou Catherine resfolegando. Magnus olhou para ela, srio.
-  Brett  no  subiu.   O  tanque   de  ar  ainda est  cheio,   mas  nesta temperatura no  aconselhvel ficar muito tempo l embaixo.
- Vou mergulhar de novo e ver se o encontro - Alex props, mas Magnus de repente assumiu um ar autoritrio.
- Seu ar est acabando. Nenhum de vocs, alis, tem muita reserva. Cat. pegue o jipe e volte para casa. Meus tanques devem estar cheios. Acha que pode traze-los'.'
Catherine ia dizer que sim, quando Magnus acrescentou:
- Tex vai junto com voc para dar uma mo. Traga-me a roupa de mergulho, tambm. No se esquea, "t"? Eu mesmo vou mergulhar, j que conheo bem a enseada!
-  No - protestou Alex. - Eu mergulho.
- Vamos discutir isso quando Cat voltar,  se  que Brett no vai aparecer at l. - Magnus respondeu calmamente. A expresso deles era de extrema urgncia.
- Quanto   tempo   demora em   esvaziar   o   tanque?   -   perguntou Catherine, alarmada.
- Meia hora - respondeu Magnus, - Portanto, seja boazinha e v correndo!
A calma de Magnus de alguma maneira lhe deu confiana e segurana suficientes para subir no jipe e ligar o motor, arrancando velozmente. Tex se agarrou no banco. 
Levou dois minutos para chegar em casa. Tex saltou do carro, nervoso, mas eficiente.
Meia hora tinha dito Magnus. o que significava que precisavam pegar o equipamento em cinco minutos no mximo. Demorou um pouco para lembrar onde o irmo o guardava, 
mas afinal encontrou. Voltaram para o jipe, do qual Catherine exigiu o mximo.
-  Mais depressa! Mais depressa! - gritava para o veculo.
Ao passar pela parte alta da colina de onde se avistava a enseada, Catherine viu-os rodeando alguma coisa no cho. Ficou branca e trocou olhares com Tex. Os dois 
tinha uma expresso amedrontada.
Finalmente freou o jipe c os dois pularam para fora em direo aos homens.
-  Cat...
Catherine no ouviu Magnus falar, concentrada nas figuras de Alex e Bill. que se debruavam sobre o homem. -  ele?...
Foi ento que o mundo pareceu girar numa velocidade estonteante! No podia desmaiar ali! Alex mexeu-se e, pela primeira vez, pde ver o rosto de Brett. Estava branco 
como ela, mas parecia bem e, o mais importante, estava vivo! Ele abriu os olhos e sorriu provocativamente.
--  melhor cuidar de Catherine, Alex - murmurou Brett. - Ela parece estar precisando bem mais.do que eu...
H cinco minutos, ela achava que a sua vida tinha acabado, agora tornava a sentir dio para com Brett. Ele a entendia mais do que ela julgava! Magnus, do seu lado. 
mostrou-se preocupado com aquela sbita sensao de fraqueza.
- Brett prendeu o p numa fenda de rocha e.  ao tentar se livrar, acabou se ferindo.  melhor chamar Mac para examin-lo. No parece grave, mas  sempre bom ter 
certeza.
- Tex, que isso sirva de lio para voc - disse Brett. - Nunca mergulhe sem um companheiro.
Levantou as sobrancelhas ao ver o equipamento de mergulho no jipe.
- A equipe de salvamento? Quem ia usar aquilo?
- Eu - respondeu Magnus secamente. - Eu costumava mergulhar e conheo muito bem essa rea.
No fez nenhuma meno ao acidente, nem revelou que tinha trabalhado numa linha muito prxima da de Brett. Mas o simples fato de ele ter pensado cm mergulhar, certamente 
era mais um passo na direo da cura. Catherine viu-se forada a reconhecer que Mac tinha razo e que ela estava errada.
No trajeto para casa, Brett olhou Catherine detidamente, o tempo todo, com uma estranha e indecifrvel luz nos olhos.
- Vou telefonar para o Mac - disse Magnus assim que chegaram, descendo e correndo para dentro.
Alex e Bill ajudaram Brett a descer do jipe.
- Podem me soltar. Agento andar sozinho. Mal entraram na cozinha, Magnus voltou.
- Mac no est.  Cat,  acho que  voc vai  fazer sua estria como enfermeira.
Brett a olhou, espantada.
- No   se   preocupe   -   brincou   Magnus.   -   Mac   ensinou   tudo direitinho para ela quando ramos crianas. Sabe como . quem vive num lugar como este nunca 
sabe o que pode acontecer. Ela chegou mesmo a pensar seriamente em ser enfermeira quando ficasse adulta, no , Cat?
- E por que no foi em frente? - perguntou Brett com desinteresse. - Falta de compaixo?
Catherine fingiu no ouvir, esperando que desse modo conseguisse suportar a dor que aquela pergunta tinha causado. Ele  que estava errado, daquela vez. Segundo 
Mac. ela jamais poderia ser uma enfermeira porque era sensvel e piedosa demais; quando um dia se visse em frente a um paciente em estado grave, com certeza teria 
um colapso.
-  Alex pode lev-lo para o quarto? Vamos precisar lavar e limpar o corte - instruiu.
- Ainda no morri. Posso perfeitamente subir as escadas sozinho. Mesmo afirmando isso, Brett precisou apoiar o corpo pesado em Alex.
Catherine foi  frente examinou o quarto. Felizmente o fogo da lareira continuava vivo e o quarto, aquecido.
Alex colocou-o com dificuldade na cama. e Brett embora no o demonstrasse, sentia alguma dor. pois fechava os olhos e estava plido.
- Acho que ele desmaiou - murmurou Alex, preocupado, quando Catherine voltou do banheiro trazendo o estojo de primeiros-socorros.
-  No   se   preocupe.   Ele est   apenas   em   estado   de   choque   - confortou-o Catherine.
-  No posso ver sangue -- confessou Alex. voltando os olhos para o outro lado.
- Ento  melhor descer e beber alguma coisa - sugeriu, abrindo o estojo. - Dois homens desmaiados seria demais!
S depois que ele se foi, fechando a porta, Catherine percebeu que Brett no havia desmaiado. Olhava-a de alto a baixo, com os olhos quase fechados, apesar da dor 
que devia estar sentindo.
- Minha   querida   enfermeira,    no   esqueceu    nada?   -   brincou, tentando sentar na cama. - Para limpar o machucado no  preciso tirar a roupa de mergulho?
Na pressa, tinha esquecido da roupa que moldava todos os msculos do corpo. Com falsa calma, disse:
- No estava me preocupando com isso. Mas se quer que eu perca tempo e isso no lhe causa uma dor considervel, posso tir-la. Eu estava pensando em cortar em torno 
do lugar do ferimento.
- O qu? Por acaso voc tem idia de quanto custa isto aqui?
-  Imagino que o mesmo preo de uma geladeira.
Falou com uma tranqilidade tal, que ela mesma se surpreendeu. A tesoura cortou a borracha e exps a ferida. Sentiu um amolecimento de corpo e apertou as plpebras 
dos olhos, como se quisesse fugir dali para no desmaiar. O corte tinha sido profundo, mostrando parte do osso. que, por sorte, no fora atingido. Por milagre, as 
artrias estavam intactas e o sangue comeava a coagular.
-   melhor se agarrar nas grades da cama - disse.  - Vai doer bastante.
-  Quer dizer que chegou a hora de voc se divertir? Ser que no vou ganhar um doce ou um beijo se me comportar direitinho?
Catherine despejou o lquido anti-sptico sobre a ferida. Estava de costas para Brett e no pde ver a expresso de dor, mas ouviu a respirao presa, sentiu as 
mos agarrando com fora o cobertor. Mac linha razo: ela era mesmo sensvel demais. Por um momento, foi como se sentisse a dor de Brett; o corao como que sendo 
arrancado de dentro do peito. Reunindo todas as foras que pde. resistiu a nusea e  fraqueza e com uma gaze embebida no lquido anti-sptico limpou rapidamente 
a carne exposta.
- Vou ter que dar pontos - alertou-o. - Mac...
- Oh. pelo amor de Deus. termine logo com isso! Voc tem agulha e linha, no tem?
No seria a primeira vez que faria uma sutura, mas era a primeira vez que cuidava do homem que amava! Terminou de dar os pontos j com as mos tremulas, tornou a 
limpar a pele e enfaixou o ferimento.
-  Agora vou aplicar uma injeo antitetnica. Depois voc precisar tomar antibitico - explicou, levantando da cama.
- E para voc recomendo um vidro de sonfero - brincou, enquanto ela atirava as gazes usadas dentro da lareira.
Ao v-la fechando o estojo de pronto-socorro e indo para a porta, Brett disse com brandura.
-  No est esquecendo de nada?
Catherine estava zonza. Devia t-lo coberto, pensou. Brett continuava em estado de choque e precisava se manter aquecido. O melhor seria colocar uma bolsa de gua 
quente. Alex mais tarde ajudaria a despi-lo. Pegou a coberta pela bainha, tirou-a debaixo dele e em seguida cobriu-o.
Nisso, Brett segurou as mos dela.   Um pouco perturbada, o rosto vermelho, instintivamente tomou-lhe o pulso. E ento, enfermeira? Qual  o diagnstico? Ignorou 
a brincadeira, concentrando-se para ver se havia sinais de febre, o que seria natural num acidente daquele tipo. Mas os olhos dele estavam claros e frios. Examinou 
os pulsos mais uma vez e constatou que as batidas ainda estavam rpidas.
- Voc est traumatizado - comentou, sem nenhuma emoo na voz.
- Ou excitado? Nunca explicaram que ambos os fenmenos tm um efeito semelhante no sistema nervoso?  Se quiser confirmar, tome seu pulso depois que fizer amor... 
O desejo no realizado pode prejudicar a sade de um homem, no sabia?
Ela soltou o pulso dele como se fosse um carvo em brasa. Por que ele a provocava dessa maneira?
No era de surpreender que tantas mulheres se sentissem atradas por Brett, e ela mesma provavelmente um dia lamentaria no ter sido uma delas. No entanto, quando 
se trata de amor, pensou, deve sempre haver algo mais alm de sexo.
-- Ento, voc ter de encontrar um jeito de se satisfazer, no ? - perguntou, irnica.
- Talvez eu j tenha encontrado. E talvez seja melhor a senhorita ir embora daqui antes que eu decida mostrar-lhe exatamente o que faz meu .pulso bater acelerado!
Ouviu a gargalhada de Brett corredor afora, onde encontroo Alex, vindo do andar de baixo.
-- O chefe est bem? -- ele perguntou, olhando para a porta do quarto.
- Continua vivo - tentou brincar. - Tive que dar uns pontos. Mas seria bom que Mac viesse, pois acho que ele est em estado de choque.
- Brett, em estado de choque? - riu Alex. - Duvido! Lembro de uma vez, quando a gente estava na Amrica do Sul. Ele quebrou a perna e ensinou para a gente como colocar 
ela no lugar. Ns estvamos a um oitenta quilmetros longe de tudo que parecesse com civilizao. O danado teve muita sorte em no perder a perna!  s quando a 
gente se v diante da morte que comea a dar valor para a vida. Agora voc me diz que Brett est traumatizado por causa de um arranho?-Tornou a rir. - No, no, 
ele no!
Mac chegou tarde e encontrou Brett vestido com o pijama de Magnus.
-  Que sujeito extraordinrio, Cat! - comentou Magnus com a irm, enquanto Mac examinava Brett. - Sempre quis ser amigo de um homem como ele!
Se Magnus soubesse! Mas nunca conseguiria estragar o processo de recuperao da autoconfiana do irmo:- No. fosse assim.J lhe teria contado que a amizade de Brett 
tinha origem no desejo d concretizar os planos da base petrolfera!
-  Fez  um   belo  trabalho  de  sutura,   Cat -  cumprimentou-a  Mac sorridente, ao descer. - O paciente disse que a enfermeira sofreu bem mais do que ele! - brincou. 
- No acham que seria bom adiar os prximos mergulhos at a primavera?
Alex balanou a cabea negativamente.
-  De jeito nenhum. Isso ia fazer a gente esperar mais doze meses para comear a construo. No, Brett quer que tudo esteja funcionando na primavera.    As   descobertas 
que   fizemos   hoje   parecem   um   indcio suficiente de que tudo vai dar certo.
Quando estava de sada. Mac puxou Catherine para um canto.
- No   posso  ficar  mais,   porque  tenho  um  parto   para   fazer  em Lerwick. Uma boa notcia para voc: Magnus melhorou muitssimo.
- Sem. dvida - ela concordou. - Mas ainda no confia em si mesmo. Acredita que todos o desprezariam se soubessem da verdade. Ele ainda no percebeu que voc falou 
sobre o acidente com esses homens.
- Acho que fiz bem, Cat - disse Mac. - E agi como medico e amigo preocupado com o rumo da vida dele.  Vocs no estavam se comportando de modo objetivo diante da 
situao. A propsito, Cat, que diabo deu em voc de ir com o barco de pesca para Lerwick? Eu estava trabalhando quando Brett telefonou. Quase tive um ataque do 
corao!
- Pois , e isso lhe deu o direito de contar a Brett que eu e Magnus no tnhamos um tosto! Desde aquele dia, ele me trata como seu eu fosse uma pequena rf. Desculpe, 
no queria falar assim com voc. - Mac no comentou nada, mas a olhou, intrigado. - Por que me olha desse jeito?
- Nada, nada... Apenas me perguntava por que fala nesse tom do homem que voc acabou de costurar. Vejo-a no final da semana. Chegarei com Fiona no helicptero que 
vir pegar Alex e os outros.


                                  CAPTULO VIl


Fiona no mudou nada, pensou Catherine. Ela era uma jovem cheia de vida, bem-humorada, uma pessoa leve. Parecia uma brisa, Estava ali para descansar e se divertir 
na ilha.   - Seu hspede  uma tentao, hein? - comentou com Catherine na cozinha.
- Se gosta desse tipo... -concordou com neutralidade. Fiona ergueu as sobrancelhas.
- Mas minha querida - exclamou, dando um suspiro exagerado -, que mulher no gostaria'.'! Acho estranho ainda estar solteiro! Deve ter bem uns trinta anos, no?
- Vai ver no acredita em compromissos prolongados.
- Ou ento  muito romntico. Deve ser exigente, mas aposto que qualquer mulher que casasse com ele viveria num paraso aqui mesmo na terra!
- Romntica   voc,  pensando  desse modo - Catherine  brincou. Cada palavra de Fiona feria seu corao como agulhas afiadas,
- No gosta dele? - perguntou Fiona, um pouco surpresa.
- No faz meu tipo - mentiu. -Ele  muito...
- Sensual? - completou a moa, maliciosamente, - Quanto a mim, acho que homem muito bonito s faz a gente sofrer. - Fez uma pausa e prosseguiu, mudando de assunto. 
- Como est Magnus? Segundo Mac, ele est melhorando a cada dia que passa.
- Um pouquinho, sim - concordou Catherine, envolvida com os prprios pensamentos e no percebendo a preocupao de Fiona com o carrinho. - Embora no comeo eu no 
achasse bom, a presena desses homens ajudaram muito.
- Mac me contou que voc tinha medo de que a base petrolfera viesse a destruir a ilha. Em parte voc tem razo, mas precisa admitir que as vantagens sero maiores 
que as desvantagens.
Desde que Fiona chegou, Brett simpatizou com ela e em pouco tempo relacionavam-se como se fossem velhos conhecidos. Envolveram-se numa conversa to exclusiva, que 
Magnus e Catherine ficaram de fora, como duas crianas com os narizes grudados no vidro de uma vitrine cheia de doces apetitosos.
- Quanto tempo pretende ficar em Falia? - perguntou Brett a Fiona, logo depois que a mesa do jantar foi retirada.
Catherine, atenta a todas as nuanas do tom de voz dele, perguntou-se se ela era a nica ali a perceber a ansiedade de Brett para ouvir a resposta.
- At depois  do  Ano-novo.   Tenho uns  dias  de  frias  e  resolvi aproveitar bastante esse lugar, que nessa poca  muito interessante... A festa de Ano-novo 
 tima. Lembra-se, Magnus, daquela festa que voc me levou para ver, faz uns trs anos? Eu no estava esperando grande coisa, e adorei. Nos divertimos muito.
Magnus parecia ter regredido, depois da chegada de Fiona.
-  Lembro sim - respondeu lacnico, sem entusiasmo.
Seguiu-se um breve silncio e, para quebr-lo, Brett procurou continuar a conversa.
- No quer me contar sobre a festa?
-- Acho que tenho uma sugesto melhor que essa - disse Fiona.
- E mesmo? E qual ?
- Que tal irmos todos  festa, este ano?
-  Excelente   idia!  -  exclamou  Brett,   olhando   para   Catherine  e Magnus. - Que vocs acham?
Magnus ficou quieto, Fiona exultava. Catherine estava a ponto de dizer que os dois fossem sozinhos, quando o irmo decidiu responder.
- Por que no? Pelo menos ser uma oportunidade de sairmos dessa maldita ilha.
Catherine ficou perplexa com a sbita mudana de humor do irmo.
- No sabia que voc e Magnus tinham ido  festa de Ano-novo - comentou com Fiona pouco mais tarde. - Ele nunca me falou a respeito.
- No deve ter sido importante para ele, Cat - disse Fiona, com naturalidade, mas no sem um ressentimento.
Desde que Fiona tinha chegado, Magnus a vinha tratando grosseiramente. Catherine sentia vontade de conversar com ele a respeito disso. Fiona era uma velha amiga 
deles, embora naquela ocasio preferisse a companhia de Brett a deles. Ambos tinham mil histrias para contar, ocorridas nos lugares mais diferentes do mundo.
Esteve na Amrica do Sul, no esteve Magnus? - perguntou Fiona repentinamente. - Naquela poca voc ainda trabalhava na United 011.
- Bem,  gente, se vocs no se importam, vou deitar - anunciou Magnus. Sua expresso era uma mistura de raiva e sofrimento. Mas s Catherine notou.
- Acho que tambm vou - disse Catherine, logo depois da sada do irmo.
Mac lia um jornal especializado em medicina e Brett e Fiona no mostravam sinais de que queriam sair.
- Existe alguma possibilidade de se visitar as plataformas, Mac? - perguntou Fiona, enquanto Catherine chegava perto da porta. - Elas me fascinam!
- No  lugar para mulheres - replicou Mac. - Aqueles trabalhadores correm perigo constante e no podem se distrair. Semana passada um rapaz quase perdeu uma perna, 
tudo por causa de um instante de descuido. Cortou uma veia e o sangue jorrava como um poo de petrleo.
- Se est realmente interessada, acho que posso burlar as normas e lev-la a uma delas - disse Brett. - Falarei com um amigo.
- Oh, mesmo?
Fiona se entusiasmou. No era exatamente uma moa bonita, mas irradiava tanta energia, que Catherine inevitavelmente comparou-se a ela, sentindo-se inferior. Era 
bonita, mas no tinha aquele charme e a capacidade de agradar de Fiona.
- Vou ver o que vai dar para fazer - Brett prometeu com um sorriso condescendente, um sorriso que nunca tinha dado a Catherine. - E voc. Catherine? - perguntou, 
voltando-se para ela. - No gostaria de ir conosco?
- Claro que gostaria - adiantou-se Fiona, animadamente. - E Magnus tambm. Vai ser bom para ele.
Era natural que ela se empenhasse na recuperao de Magnus, pensou Catherine, parada junto  porta. Afinal era enfermeira profissional. Mas ao pensar no que Fiona 
dissera de Brett no pde conter uma onda de cime. Fiona fazia questo de demonstrar que o achava atraente, sensual. E de fato Brett era sensual, reconheceu Catherine, 
com um estremecimento que a deixava sem nenhuma defesa. Sabia que, se naquele momento ele a tocasse de leve, todo seu corpo arderia na nsia de se entregar.
No dia seguinte, depois do caf da manh, Brett disse que estava tudo combinado para a visita na plataforma de Boxing Day. - Um helicptero vir nos pegar e depois 
nos trar de volta. Catherine achou    que    Magnus    ia    recusar,    mas    ele    aceitou, evidentemente apenas para no ser desagradvel. E por isso ela tambm 
foi obrigada a aceitar. No queria que Brett descobrisse a razo pela qual no suportava v-lo junto de Fiona o tempo todo.
Fiona fez algumas perguntas sobre a plataforma e Brett respondeu indicando alguns sinais num diagrama aberto sobre a mesa. Ainda no estava em condies de mergulhar 
e, como Mac tambm o tinha desaconselhado a caminhar, Catherine viu-se sozinha com ele em casa, enquanto os outros iam at a colina.
Ao comear a tirar as louas da mesa viu o diagrama.  Quase que involuntariamente, estendeu a mo para pegar o papel. A porta se abriu de repente e, num susto, ela 
o deixou cair.
-  Brett!
-- No sabia que tinha interesse por engenharia.
Catherine abaixou para pegar o papel e quando levantou, deu de cara com o peito que a camisa meio desabotoada mostrava. Entregou-lhe o diagrama e apertou uma mo 
contra a outra, tensa, perguntando se ele tambm achava que Fiona tinha um autntico interesse por engenharia ou se tinha absoluta certeza de que o grande interesse 
dela era por ele.
- A engenharia no me desperta nenhum interesse - retrucou. - S queria saber o que era...
Catherine ia para a cozinha, mas sua cala prendeu numa falha da cadeira e ela tropeou. Quase perdeu o equilbrio, mas ele a segurou a tempo.
- Obrigada - ela disse com frieza, sem ousar olhar diretamente nos olhos dele. Tentou se esquivar, mas ele no a soltou.
-  O que existe entre Fiona e Magnus? - perguntou, de repente. Catherine fez uma expresso de surpresa.
- No pode ser to cega a ponto de no ter notado - comentou - Eles ainda esto juntos ou tudo j terminou?
O corao de Catherine bateu num descompasso alarmante. E pensar que Fiona dissera que a mulher que o amasse viveria num paraso terrestre!
Brett no fazia o menor esforo para esconder que estava interessado em Fiona. Por isso queria saber qual era o nvel de envolvimento dela com Magnus!
- Por que no pergunta para Fiona? - desafiou. - Pelo grau de intimidade em que esto, esse tipo de pergunta no causaria nenhuma estranheza!
Tentou escapar, mas Brett, mais forte que ela, bejou-a inesperadamente. Aos poucos seus corpos se colaram de novo em carcias e intimidades.
Catherine perdeu qualquer vontade de resistir, e estava quase cedendo as exigncias de Brett para abandonar-se totalmente. Vibrava com as mos dele acariciando-lhe 
os seios.
Mas ele se afastou com a mesma rapidez com que tinha se aproximado,    respirando pesadamente, os olhos luminosos e quentes.
-- Pelo menos descobri  uma maneira de faz-la  fechar a  boca - zombou. - Com tanto sucesso, acho que vou patentear o mtodo.
- E eu acho que vou contar a Fiona que espcie de homem voc  exclamou Catherine com uma raiva incontida, os olhos umedecidos.
Sabia, porm, que seria incapaz de falar sobre isso. Mais tarde, quando todos voltaram, se algum o notou, ningum chegou a lhe perguntar porque estava triste, solitria 
e silenciosa.
Durante a tarde, Findlay apareceu trazendo a rvore de Natal que tinha comprado em Lerwick. Arvores de natal de verdade eram uma raridade e um luxo nas ilhas Shetland, 
pensou Catherine, enquanto a arrumava com a ajuda de Fiona. A ltima vez que puderam ter uma tinha sido no Natal anterior  morte dos pais, um Natal que jamais esqueceriam. 
No havia igrejas em Falia,   mas  mesmo  assim  realizavam  um  ofcio  especial, assistido por todos os arrendatrios da ilha. - Ainda me lembro da ltima vez 
que vi uma rvore de Natal nesta
casa - observou saudoso o velho Findlay,  que tinha passado algum tempo ali contando as histrias de pescaria que aprendeu com o av.
- Catherine, vocs passaro  um  Natal em Londres? - perguntou Fiona, fixando as luzes coloridas.
- Quando Magnus   melhorar.   Gostaria  de   lev-lo   para  l,   como retribuio por tudo que fez por mim.
- Nunca pensou que ele poderia se recuperar mais depressa se agisse sozinho?
- Que quer dizer com isso, Fiona?
- Que voc facilita demais as coisas para ele, escondendo-o do resto do mundo - completou, com ternura.
Ser que Fiona estaria querendo dizer que sufocava Magnus?, pensou Catherine. Olhou para ela, viva, gil, eficiente, e depois para o irmo. Magnus observava Fiona 
com tristeza e nostalgia, quase que da mesma maneira que ela, Catherine, s vezes olhava para Brett. Mas ento amava Fiona?
Magnus desviou o olhar ao perceber que era observado, o rosto srio, sem vida. No, pensou Catherine, ele seria incapaz de confessar o que sentia no fundo do corao, 
assim como ela mesma seria incapaz de desabafar com ele!
Com a ajuda de Fiona. passou o resto do dia fazendo pastis de carne, e quando finalmente Findlay anunciou que ia embora, a cozinha estava impregnada com um cheiro 
delicioso.
O pescador chegou  porta, parou, enfiou a mo no casaco surrado e tirou um raminho de arruda.
Catherine riu e beijou-o no rosto. Ele ficou roxo de vergonha.
Ela no percebeu a entrada de Brett, no momento exato em que entregava o raminho ao irmo.
- Acho que voc vai precisar dele mais do que eu - disse a Magnus.
Ele ignorou a arruda e tambm a presena de Fiona, que estava sentada na ponta da mesa. Levantou, vestiu a capa impermevel e anunciou que estava de sada.
Brett pegou a arruda, atirou-adentro da lata de lixo, aproximou-se de Fiona e beijou-a levemente na boca.
Catherine se esforou para ficar l na cozinha e no sair correndo escada acima, em total desespero. A dor que sentia era forte e quase: insuportvel,  como se seu 
corpo partisse em duas  metades.  Evitando chorar, foi para o fogo e o abriu. Na tentativa de no assistir as carcias dos dois, agindo estabanadamente queimou 
a mo na porta do forno. Gritou involuntariamente, chamando a ateno de Fiona que, preocupada, correu at ela.
- Sua desastrada! - exclamou com um sentimento de solidariedade.: - Trouxe alguns remdios. Vou buscar e volto j, j.
- No se preocupe, no foi nada - comentou Brett, com ironia.
Claro que no tinha sido nada! Para ele, Catherine no devia significar -nada mesmo!
Fiona voltou um pouco afobada.
- Essa pomada  para refrescar - explicou. - Puxa! Voc vai ver a bolha bonita que vai aparecer a - brincou, tentando tranqilizar Catherine. - Deixe que eu pego 
os pastis para voc e guardo na despensa. - Quando abriu a despensa, viu a geladeira nova. - Quando comprou essa maravilha!
- Brett a comprou para... para uso dos homens dele! Sabe como , precisam comer carne boa todos os dias e, em Falia, sem geladeira isso nem sempre  possvel.
- Foi uma boa idia - concordou Fiona, sorrindo para Brett. - Magnus nunca chegou a pensar nisso!
- Obrigado pela aprovao - respondeu ele, retribuindo o sorriso. Catherine sentiu uma presso na garganta, como se fosse explodir em prantos, e decidiu sair dali.
- Desculpem, no quero atrapalhar essa troca de gentilezas! -- Saiu sem olhar para trs.
- Ah, benzinho, voc acha que ela ficou chateada?
Foi a ltima coisa que Catherine ouviu, e nunca soube a resposta de Brett,
Observando Magnus todo encolhido contra a porta do helicptero, Os olhos fixos nas guas do mar, Catherine viu o quanto ele relutava em visitar a rea de explorao 
de petrleo.
Do alto, Falia era uma mancha pequena e esverdeada no meio de um fundo cinzento, que se estendia de horizonte a horizonte.
- J andou de helicptero alguma vez, senhorita? - perguntou o jovem piloto americano.
O rapaz fora gentil ao ajud-la a subir no helicptero, mas o insistente olhar de Brett a segui-la deixou-a muito pouco  vontade.
Brett vestia jeans, suter e jaqueta, Estava perturbadoramente msculo. No era  toa que Fiona teimara em sentar ao lado dele, provocando-a e fazendo-a sentir um 
louco cime.
At o dia em que conheceu Brett Simons, Catherine julgava-se uma mulher sensata. Fora algumas experincias inconseqentes na adolescncia, nenhum homem tinha conseguido 
fazer seu corao bater to forte. Nas poucas vezes em que pensou em casamento, imaginou algum que tivesse algo em comum com ela e que lhe desse segurana.
Segurana era uma coisa que Brett Simons nunca daria a uma mulher, pensou. No entanto, tinha certeza que, depois de conhec-lo, dificilmente encontraria outro homem 
com quem quisesse partilhar as intimidades do casamento.
Seu corpo, antes to preso e controlado, parecia ter desenvolvido uma linguagem prpria, uma vontade independente da sua, uma vontade que se tornava mais forte a 
cada dia. Toda vez que via Brett descobria uma atrao nova, alguma coisa no rosto, no corpo, no jeito dele, que no tinha notado antes. Descobria tambm a potncia 
da masculinidade dele, misturada com uma ternura devastadora.
- Estamos chegando perto - comentou Mac, apontando a rea de explorao.
- Nossa, que coisa esquisita! - exclamou Fiona, franzindo o nariz numa evidente reprovao. - Sabia que os habitantes das Shetland foram pescadores de baleia? - 
perguntou a Brett. - Bem antes de a pesca' se tornar comercial.
- No! - Catherine disse horrorizada, vendo l embaixo as pacficas baleias serem dizimadas.
- Est com d? - perguntou Brett. - Voc me surpreende!
O piloto chamou a ateno deles para as grandes instalaes que agora estavam mais prximas. Catherine, ao ver a estreita faixa de aterrissagem, sentiu um leve mal-estar.
- Estou doido para escrever para casa e dizer que vi neve de verdade -  comentou o piloto, manobrando o helicptero. Catherine riu. - Puxa! -  continuou ele, - Antes 
de vir para c, nunca tinha visto o sol da meia-noite.  uma coisa absolutamente extraordinria!
- Noites   brancas   -  completou   Catherine,   falando   como   grande conhecedora da regio. - Era assim que a aristocracia russa dizia. Toda vez que fico longe 
das ilhas, sinto falta do cu. das nuvens que nunca param de mudar e... do mar! Brett olhava para Catherine com curiosidade.
- Estranho - comeou ele -, a coisa mais fascinante daqui para mim  o cu, entre outras coisas.
Ele e Fiona trocaram um sorriso, perturbando Catherine. Seria Fiona  uma dessas coisas? Era evidente que, num curto espao de tempo, tinham-se tornado grandes amigos!
Catherine olhou para Magnus. Ele olhava pela janela, os ns dos dedos muito brancos apoiando o queixo. Formavam um belo par, pensou com ironia, ambos sentindo falta 
de um amor que possivelmente nunca lhes pertenceria.
O amigo de Brett, Chris, recebeu-os e explicou que tinha vindo de Sullon especialmente para lhes mostrar a rea.     Ignorando diplomaticamente os olhares de desaprovao 
de alguns operrios e chefes, arranjou capacetes para Catherine e Fiona.
- Desculpem serem to deselegantes - justificou-se bem-humorado. -  uma norma daqui usar sempre esses capacetes protetores.
- Acho uma norma muito inteligente - aprovou Fiona.
- Brett e Fiona foram caminhando  frente, e Catherine, vendo-os de braos dados, ficou mais atrs, com Mac e Magnus.
Chris guiou-os por todas as partes que podiam ser de interesse deles e  em pouco tempo Magnus comeou a fazer perguntas sobre vrios pontos da engenharia nutica, 
agora bem mais animado do que quando subiu no helicptero em Falia.
- Gostariam de tomar um ch? Vamos para o meu escritrio - Chris props.
O ch, feito no restaurante, estava doce e forte.
- Nosso quadro  composto exclusivamente por homens ~ explicou  Chris. - Esta  uma outra norma: nenhuma mulher.  Claro, s vezes fazemos algumas excees. - Sorriu 
com malcia.
Quando voltaram  plataforma onde estava o helicptero, Brett inclinou-se sobre a superestrutura para examin-la melhor. Catherine no tirou os olhos dele, temendo 
algum acidente. Estavam a dezenas de metros acima do nvel do mar e o homem que casse naquelas guas turbulentas dificilmente se salvaria.
E como se fosse uma premonio, Brett de repente se inclinou demais, perdeu o equilbrio e caiu.
Seu grito foi abafado pelo vento. Magnus virou instintivamente e percebeu imediatamente o que estava acontecendo. Antes que algum tentasse impedi-lo, arrancou a 
jaqueta e mergulhou atrs de Brett.
-  Joguem um cinto salva-vidas! - gritou Chris.
Catherine foi afastada da beirada da plataforma pelo brao protetor de Mac, enquanto estourava um vaivm de homens.
-  Pode v-los? - perguntou a Mac.
- Calma, querida! - pediu ele. - Se algum pode salvar seu homem, esse algum  Magnus! No se esquea de que ele  um formidvel nadador!
Baixaram uma lancha e o rudo do motor cortou o silncio da tarde. Os operrios apinharam-se na beira da plataforma, olhando inquieta e ansiosamente o movimento 
das ondas.
-  Estou vendo um! - gritaram.
O corao de Catherine disparou. Um... seu amor ou seu irmo? Um deles estaria perdido?
- Estou vendo o outro! - tornaram a gritar.
- Mac... - Catherine quase no tinha voz.
-- Espere aqui. Vou descobrir o que est acontecendo. Dois minutos depois, voltou, suspirando aliviado.
- O nosso querido Magnus fez um tremendo trabalho. A lancha ser iada daqui a pouco. Catherine foi o maior espetculo de natao que vi em todos esses ltimos anos. 
Deve ter chegado s guas apenas alguns segundos aps Brett ter cado.  um bravo guerreiro, para usar a velha expresso. Dificilmente voc vai encontrar algum 
to eficaz e to rpido quanto seu irmo! E com essa coragem!
Uma coragem empregada inutilmente Catherine pensou consigo mesma. Porque s ela tinha visto Brett se jogar intencionalmente sobre a grade de ferro. Sim, sim, intencionalmente!
Meia hora depois, os dois homens foram trazidos de volta e levados para o escritrio de Chris, onde ficaram enrolados em toalhas para se aquecerem. Enquanto Mac 
os examinava, anunciando que no tinham nenhum problema grave, ambos tomaram ch quente.
- Vocs  parecem  de  borracha! - exclamou  Mac. -Esto em perfeito estado!
- Deviam ir j para a cama - sugeriu Fiona, comportando-se como a enfermeira profissional que era. - Principalmente Magnus, o pulso dele est acelerado.
Com surpresa, Catherine viu Fiona muito prxima do rosto de Magnus, enquanto tomava-lhe o pulso,
-  Hum... - fez Mac, - Seria melhor mandar tirar raios X dos dois.
- Vou pedir para o helicptero ir direto para Lerwck - disse Chris. Momentos mais tarde, Catherine estava sozinha em casa, Mac e Fiona acompanharam os pacientes 
at Lerwick.
Ela sentou-se numa cadeira de couro muito alta em frente  lareira, o pensamento repetindo os acontecimentos daquela tarde, como se fosse um filme passado com cmara 
lenta, parando sempre no momento fatal: Brett atirando-se contra o mar por livre e espontnea vontade! Mas por qu?
O telefone tocou e ela levantou imediatamente para atender. Como imaginou, era Mac, informando que Magnus ia ficar aquela noite no hospital.
- Um leve estado de choque  explicou -, nada mais, E provavelmente, mais psicolgico do que fsico. Cat, ele foi alm daquilo que espervamos. Alis, foi alm das 
prprias possibilidades, se nos lembrarmos do estado em que estava mergulhado h tanto tempo, desde o acidente. Bom, irei v-la em breve. Boa noite.
Desligou antes que Catherine pudesse fazer qualquer pergunta. Voltou a sentar, encolhida como um feto, procurando se aquecer e dormir, sem nenhuma vontade de subir 
para o quarto, botar a camisola e deitar na cama.
Estava vestida com o roupo que Magnus lhe deu de presente de Natal. Era de seda pura, azul-violeta, para combinar com a cor de seus olhos.
Mac e Fiona tambm lhe deram alguns presentes. Ela deu a Mac meias de l feitas por mulheres de Shetland, e a Fiona, um vidro de perfume doce e leve.
Foi difcil escolher o presente de Brett. No conseguia dar uma coisa impessoal e ao mesmo tempo no se trairia com nada muito pessoal e extravagante. Afinal, se 
decidiu por uma colnia ps-barba, italiana. Recebendo em troca um presente igualmente neutro: uma caixa de bombons caseiros.
No, no... aquele no era um dos Natais mais felizes de sua vida, refletiu com melancolia, lembrando da cabea de Fiona deitada nos ombros dele...
Aquela seda do roupo lembrava a maciez de uma pele, murmurou para si mesma, enquanto movimentava-se com sensualidade, os bicos dos seios roando o tecido. Desde 
a intromisso de Brett em sua vida, tinha se tornado mais e mais consciente de seu corpo... e mais e mais atenciosa para com as necessidades dele!
Acomodada na biblioteca, estava quase dormindo quando de repente a porta se abriu.
- Mac? - perguntou, censurando-se pelo tremor da voz.
Mas por que sentia tanto medo? Estaria sendo sondada pelos fantasmas dos antepassados dos Peterson?
- No tenha medo - disse a voz zombeteira de Brett, escondido na sombra da noite. Mas logo ele acendeu a luz.
- O que est fazendo aqui? - perguntou Catherine, espantada.
O rosto dele estava levemente corado, os olhos muito brilhantes. Ser que ele tinha bebido?, pensou.
- Achei que voc no devia ficar sozinha nessa casa enorme...
- Podia pedir a Mac para vir para c... ele no se incomodaria.
- No,  ele estava cansado e precisava dormir.  Alm disso,  tenho algumas coisas para lhe dizer...
- Por exemplo, explicar por que se atirou no mar?
- Qu?
- Por  que  fez  aquilo? Julgou  uma idia  brilhante  para  chamar a ateno sobre voc? Ou uma maneira brilhante de fugir do seu rival?
-  J ouvi demais as besteiras que voc tem para me dizer, Catherine.  isso mesmo o que est pensando? Que me atirei de l de cima para ficar livre de Magnus?
Catherine comeou a se envergonhar do que disse. Para falar a verdade, pensou, mais uma vez se arriscava ao ridculo por causa da precipitao e do preconceito!
- Por que foi ento? - perguntou de novo, sentando na cadeira de couro. O tecido repuxou, acentuando a forma dos seios, Brett a olhou daquele jeito que ela conhecia 
bem, percorrendo todo o seu corpo, de cima a baixo.
-  Voc   est   usando   alguma   roupa   debaixo   desse   roupo?   - perguntou num tom de voz que tornava evidente suas intenes. -Cat...  pode ficar certa 
de que  uma mulher muito estranha! Todas as que |conheo   vestem   esse   tipo   de   coisa   quando   esto   aguardando   um companheiro, no quando esto absolutamente 
sozinhas! Voc tem medo de sua sensualidade?  por isso que sempre esconde o corpo por baixo de jeans?
- O jeans e o suter que uso so as nicas roupas adequadas, para este tempo - respondeu, traindo-se mais uma vez com a voz emocionada e as bochechas avermelhadas. 
- Mas voc ia me falar sobre seu acidente na  plataforma...
- Ah, sim, foi uma idia que me ocorreu outro dia quando fomos para a enseada  mergulhar.  Apesar da  resistncia  em  voltar para  o  antigo trabalho,   senti que 
Magnus  estaria preparado para mergulhar.   O  que aconteceria, me perguntei se ele se visse numa situao de urgncia? De um acidente? Eu tinha certeza de que, 
se essa situao de emergncia fosse criada,  ela acabaria por dar um jeito de ultrapassar, de alguma maneira,  as barreiras dele,  enfim,  o trauma...  Como voc 
sabe, esse trauma veio do medo... e o  medo o impediu de ajudar os amigos naquele acidente. No conseguiu sequer se mover, no foi? Eu acreditava que em circunstncias 
bem diferentes ele conseguiria perceber que ainda era um homem de coragem, e que essa coragem estava apenas escondida em algum lugar dentro dele...
- Voc fala como um manual de Psicologia, Brett. Foi por isso que armou toda aquela cena? Assustando seu amigo Chris e todo o pessoal da plataforma? Mas e se seu 
plano falhasse? No pensou que meu irmo pudesse morrer? Que...
- Espere um pouco... - cortou, os punhos cerrados. - Ningum sabia de nada, exceto eu, e por isso sabia perfeitamente das minhas possibilidades de morrer ou de continuar 
vivo... Quanto a Magnus... bom, eu sabia que ele era um excelente nadador.
-  Mas, Brett, se arriscar daquela maneira... Voc podia ter morrido, apesar de toda sua autoconfiana. Magnus poderia ter morrido!
Brett sorriu.
-  Impossvel! Eu simplesmente tinha feito uma aposta de que por trs do medo Magnus conservava o instinto de sobrevivncia, e tinha certeza de que num momento de 
absoluta necessidade ele passaria por cima de qualquer barreira! Conversamos no hospital e acho que ele ultrapassou o pior. Eu lhe disse que, quando quiser, poder 
trabalhar comigo... Catherine no pde conter as lgrimas.
- Ainda, me   odeia?   -   Brett   perguntou,   bruscamente.   - Est ressentida por no ter conseguido libertar seu irmozinho querido? Oh, sim, Mac me contou quanto 
voc desejava restituir a  normalidade  a Magnus...
-   assim que me v? - perguntou ela, a voz embargada. - Uma pessoa ciumenta, egosta, chata mesmo? Acha que a esta altura vou me importar   com   quem   conseguiu 
ou   no   libertar   Magnus,   quando   o importante  que ele voltou a ser o que era?
- Ento, perdoe-me. Estou errado... Alis, tenho errado demais nos ltimos dias...
Brett foi a direo  porta e desligou a luz.
- Durma bem, Catherine, e sonhe com os anjos.
Ele ainda segurava a maaneta da porta quando ouviu os primeiros soluos. Ficou parado, apenas uma sombra imvel indecisa. Ento se aproximou dela lentamente, agachou 
na sua frente e tomou-a nos braos.
- Est tudo bem, minha querida... Mas chore, chore que  bom...


                             CAPTULO VIII


Como estava tudo bem, se seu corpo estremecia junto ao dele? Perguntou-se Catherine, temendo perder a lucidez. No havia mais lgrimas, no havia mais dor, tudo 
tinha sido esclarecido e entendido. Brett tratava-a como se fosse uma pequena criana desprotegida, assustada, mas seu corpo reagia como o de uma mulher.
Sentiu o cheiro gostoso do corpo de Brett, mesmo debaixo de tanta roupa. Desejava-o muito, e o desejo superava qualquer outra emoo!
Brett beijou-a e Catherine abriu os lbios para receber os dele com uma entrega nunca imaginada. Apertava-o atrs do suter, ansiosa e impaciente por tocar-lhe a 
pele e abra-lo.
Por um instante, Brett continuou segurando-a nos braos, o olhar nos olhos apaixonados, na boca muda.
- Todo homem que recusa as ddivas divinas  um tolo - murmurou, tornando a beij-la com ardor, despertando nela todos os sentidos e fazendo o mundo ao redor ir 
desaparecendo aos poucos.
Desta vez, ele a tocava com gentileza, como se reconhecesse sua inexperincia, mas no era isso que Catherine queria. Se aquela seria a primeira e a ultima vez que 
estariam juntos, que se comportassem como iguais, como homem e mulher unidos por um nico desejo que precisava ser satisfeito. E seu corpo comunicava-lhe isso, exigindo 
dele a posse completa.
As mos de Brett inicialmente acariciaram-lhe os seios e depois se tornaram irreverentes, excitando-a e provocando ondas de prazer. Ela murmurou qualquer coisa incompreensvel 
quando ele parou de beij-la, para depois experimentar uma sensao estonteante de delrio: a boca de Brett deslizava pelo pescoo e a lngua brincava entre os seios,
A dor do desejo transformou-se numa necessidade urgente, e as mos de Catherine deslizaram por debaixo do suter dele.
- Catherine.  olhe  nos  meus  olhos - ele pediu,  se  afastando  um pouco.
Ela o obedeceu, um pouco intimidada.
- No pare, Brett - implorou, ao v-lo se afastar e ao sentir frio. --No pare de me tocar - repetiu, abraando-o pela cintura.
Sentiu a respirao dele na pele enquanto ia tirando devagarzinho seu roupo, com olhos cobiosos.
- Quero olhar voc, tambm, Brett - pediu. - Deixe-me olh-lo... Brett tirou as roupas em silncio, o olhar fixo no rosto dela. O corao de Catherine disparou, 
os lbios ressequidos, os msculos tensos.
- Como voc  lindo - murmurou, quase soletrando as palavras, perplexa com a descoberta. Passava os dedos delicadamente pelo peito dele, pelas costas, pelo rosto.
Brett estremeceu repentinamente, cia apoiou a cabea sobre o brao forte e a boca dele desceu para os seios eretos e excitados. Agora no estava mais to gentil, 
e ela no queria mesmo que fosse, a respirao estava ofegante, o corpo pedinte.
-  Catherine - sussurrou ele, ardente.
Catherine tambm ardia, impaciente para conhecer o prazer de ser possuda!
No importava que ele no a amasse, j se sentia agradecida por estas migalhas de paixo. Nos movimentos intensos, do corpo de Brett. sentia tambm o desejo, a mesma 
impacincia da posse.
-  Catherine - Brett balbuciou. - Voc me subiu na cabea como... Sua frase foi interrompida pelo telefone que tocou. Catherine o atendeu automaticamente.
- Pronto...
- Catherine,  voc?
- Fiona?...
- Sim, sou eu. Brett est?...,
- Est- respondeu, um tanto irritada. - Um momento - e passou o fone para ele. - No se preocupe -- acrescentou -- vou livr-lo do 
embarao de precisar contar para ela. Direi que insisti com voc e... - Comeou a chorar e virou o rosto para ele no notar.
Subiu para seu quarto e se atirou na cama. Seu corpo estava encolhido, com vergonha e frustrao.
Como pude ser to estpida! pensou culpando-se. Alguns minutos mais e Brett teria lido tudo o que lhe ia por dentro! Seria incapaz de esconder sentimentos to poderosos! 
Como os homens eram diferentes. Eles podiam fazer amor experimentando apenas desejo. Para ela. o desejo s existia porque estava perdida, loucamente apaixonada! 
E seus sonhos tinham-se transformado em p!
Ficou deitada acordada noite adentro e Brett no a procurou. Como seria feliz caso pudesse se transportar at milhares de quilmetros longe dali, para nunca mais 
v-lo! Sabia, porm, que se nunca mais o visse, seria como se vivesse sem ar para respirar!
Era inacreditvel a mudana que Magnos tinha sofrido. O estranho acidentado no Oriente Mdio havia desaparecido e em seu lugar estava de volta o velho irmo a quem 
Catherine adorava. Aos poucos, ganhava nova vitalidade e passava com Brett horas inteiras analisando cpias heliogrficas e desenhos em escala do projeto do terminal.
Depois que Magnus e Fiona voltaram a Falia, tiveram dias de vento terrvel, o que os obrigava a ficar fechados em casa. Mac estava em Lerwick, e no podia visit-los 
pela falta de pessoal no hospital.
Melanclica e abatida, Catherine observava Magnus, Brett e Fiona rirem contentes, enquanto se entretinham com o domin. Seus pensamentos se concentravam exclusivamente 
em Brett, Agora lembrava da manh anterior  chegada de Magnus: quando ela desceu, Brett j estava na cozinha, a barba por fazer, claramente perturbado pelo que 
tinha acontecido na noite anterior. Restava-lhe encar-lo, porque se no o fizesse naquele momento, nunca mais conseguiria.
-  Ch? - ofereceu ele, tirando a chaleira do fogo.
Catherine fez que sim com a cabea. Quem os visse ali, pensaria que eram um feliz casal partilhando daquela gostosa intimidade domstica de uma manh que mal iniciava.
- Acar? -- ele voltou a oferecer.
De novo ela fez que sim com a cabea, puxando os cabelos que caiam sobre o rosto.
-  Precisamos conversar.
O anncio repentina fez com que ela parasse a mo no ar, antes de pegar na asa da xcara.
- Conversar?
- Sim, foi o que disse,
- Sobre o qu?
- Sobre aquela noite - afirmou ele. - O que aconteceu conosco foi resultado direto do impacto emocional causado pelo acidente...
- E um erro completo - acrescentou  ela.  - Muito bem,  ento vamos tratar de esquecer tudo!
-  Se  o que quer...
Catherine segurou a xcara com as duas mos e inclinou o rosto para beber um gole de ch.
-   o que eu quero - confirmou.
Apesar de a cozinha estar quente, sentia um frio terrvel, talvez o maior frio de toda a vida, incluindo o da noite em que recebeu a notcia da morte dos pais. O 
que experimentava possivelmente era uma coisa parecida com a morte, quem sabe ainda mais dolorida, porque era a morte das emoes, uma morte que viveria dentro dela 
para sempre.
-  Ento est encerrado o assunto.
Brett colocou a xcara cuidadosamente sobre a mesa e olhou Catherine de modo inteiramente impessoal. E era assim que desde ento a vinha olhando.
Ela abanou a cabea para afastar as lembranas e voltar  realidade de hoje. Viu-o sorrindo para Fiona, alegre. Quando seus olhos se encontraram casualmente, a alegria 
desapareceu do rosto dele, substituda por uma fria expresso de cortesia.
Brett, na verdade, no olhava para ela, mas atravs dela, refletiu com tristeza.
- Por que no vem se juntar a ns? - perguntou Magnus. - Voc gostava de jogar domin.
- Talvez ainda goste, mas no da nossa companhia - observou Brett com sarcasmo.
A partir daquela noite terrvel, Brett tinha adquirido o hbito de fazer comentrios cidos desse tipo. Talvez porque, agora que conquistara a amizade de Magnus, 
no se importasse com o que ela poderia pensar dele.   Por que  razo  havia  se  tornado  to  frio?  Agora  tinha  certeza completa de que ele sentia por ela apenas 
simples desejo sexual, e mesmo assim, nada avassalador.
A onda de frio e o vento forte mantinha-os presos irremediavelmente. Fiona ajudava nas tarefas domsticas e Catherine ficava assim com mais tempo livre para ela 
mesma.
- Cat - comeou a falar Magnus certa tarde, quando estavam na biblioteca -, o que esta pensando em fazer da vida? Agora que sei que meus medos eram infundados, devo 
procurar trabalho. Brett me convidou para trabalhar com ele, e falou inclusive na possibilidade de eu me tornar seu scio, se os resultados da base petrolfera forem 
positivos.
- Voc quer dizer que,  se no concordarmos com o projeto,  no haver nenhum  trabalho? Magnus, voc no precisa de Brett Simons, muito menos da caridade dele! 
Por que no volta para a United Oil?
- No tire concluses apressadas! A oferta de Brett no depende de ns concordarmos ou no com o projeto, mas eu aceitar ou recusar a sociedade. E ele no pode me 
oferecer sociedade, antes de ter certeza que a base aqui  ser comercialmente vivel.  O  sucesso da construo do terminal exercer uma grande influncia na consolidao 
da firma dele.
- Brett planejou tudo muito bem, no? Honestamente, Magnus, no sei como pode considerar a proposta de trabalhar com ele. Ser que no percebeu que ele est roubando 
Fiona de voc bem debaixo do seu nariz?
-  Oh, Fiona nunca foi minha para ser roubada, quero que isso fique bem claro. E se ela prefere Brett a mim... bom, ultimamente, voc tem que admitir, no fui um 
homem indicado para o casamento. Trabalhar com Brett significa abrir meus horizontes como gelogo, e tambm como pessoa. Preciso voltar  vida, Cat. Mas no estamos 
conversando a respeito dos meus planos, mas dos seus. Pretende voltar a Londres e continuar o curso1.'
- Acho  que  no  tenho  muitas  opes.   No  quero  que  voc  me sustente para o resto da vida.
-  Se o terminal for em frente, provavelmente voc poder se sustentar adequadamente sem sequer levantar uma palha - comentou Magnus com tranqilidade. - Cat, diga-me 
o que est errado? Sei que durante muito tempo fui egosta, mas preciso admitir que nem tudo  como a gente deseja.  algum problema com Brett?
-  No gosto dele, se  o que quer saber. Oh, no ignoro que ele o ajudou bastante, e estou muito grata por isso. Mas ele tem lucrado com isso. Primeiro, o terminal; 
agora, Fiona.
-  Oh, Cat... No queira me fazer de bobo. Conheo voc como a palma da minha mo. Est apaixonada por ele, no est?
-  to evidente assim?
- Para mim, sim. Escute, no tenho inteno de v-la longe daqui, mas acho que  hora de comear a pensar seriamente no seu futuro. No  nada bom ficar plantada 
nesta ilha remoendo o passado e alimentando frustraes...
- Depois, com o terminal Brett estar sempre aqui na ilha, e no ser nada agradvel que eu o embarace com meu amor impossvel... No  assim que est vendo as coisas?
- Cat, por favor! - Magnus falou com a voz exasperada. - No quis dizer isso. Simplesmente pensava em voc. Fique, por favor...
- Para olhar os dois juntos?
Magnus cedeu a insistncia, calando-se. Talvez ele tivesse razo e a melhor soluo seria ir embora dali o mais depressa possvel. No restava nenhuma dvida de 
que o terminal iria ser construdo. Pelo que tinha ouvido em algumas conversas entre Brett e Magnus, a enseada possua o potencial necessrio para uma explorao. 
Chegaria o momento em que no poderia continuar recusando. Brett organizara tudo, pensou com tristeza, e Fiona daria uma excelente esposa para ele.
Recolheu-se cedo, esquivando-se dos convites para sentar com eles junto da lareira. No conseguia imaginar como Brett continuava aparentemente imperturbvel e Magnus, 
para seu desespero, desejava sinceramente que Fiona encontrasse a felicidade ao lado de Brett. Quanto a ela, bastava passar por eles para sentir um cime insuportvel.
Quando acordou, o cu estava claro, o vento soprava mais fraco, mas Catherine tinha certeza que essa trgua era transitria. No tomou o caf da manh e desceu direto 
para o porto, onde ficou observando Findlay preparar o barco de pesca.
- Vai sair? - perguntou, sentada no quebra-mar, o queixo apoiado nos joelhos.
- Vou. Acho que s vai ventar de tardezinha.
- Posso ir com voc?
Findlay observou os dedos inquietos de Catherine e notou os olhos tristes.
- Pode, sim.
O cheiro de peixe do barco transportou-a imediatamente para  infncia. Quantas e quantas vezes ela e Magnus no saram de casa logo ao nascer do sol, no vero, para 
navegar nos barcos de pesca?
O mar estava tranqilo e Catherine sentou em silncio, assistindo Findlay manobrar para fora da enseada. Quando ele pegou a rede, deu um jeito de se aproximar para 
ajud-lo.
- Nunca se sabe se vai dar peixe. - Findlay comentou.
- Seu pessimista! - ela provocou.
Enquanto trabalhavam, Findlay no tirou os olhos do cu e, como tinha previsto, de tardezinha nuvens negras cobriram o horizonte.
- Est na hora de  ir embora.  Aquilo  o nordeste, se no estou enganado.
Estavam perto de Falia, quando Catherine avistou o pequeno barco de vela vermelha e amarela.
- Findlay, aquelas cores no so do Clube Nutico de Lerwick?
- , sim. Quem ser o idiota que viu um pedacinho de cu azul e pensou que estava no vero? Algum recm-chegado, sem dvida. O vento vai atingir o veleiro cinco 
milhas antes de Lerwick.
Fez um sinal para chamar a ateno do piloto, gritando demoradamente atravs do megafone.
O piloto, que estava usando uma jaqueta inflvel alaranjada, ouviu Findlay e acenou cumprmentando-o, o veleiro avanando perigosamente para a rea de rochas cobertas 
pela mar.
- Voc vai se esborrachar nas pedras, seu idiota! - gritou Findlay.
- Precisamos  fazer alguma  coisa!  Se o  veleiro virar,  ele vai  ser arrastado pela corrente.
Mas o piloto evidentemente no entendeu o que Findlay estava gritando, pois tornou a acenar, sorridente, dirigindo o veleiro para a zona perigosa das rochas.
Findlay desistiu de alert-lo mais uma vez e rumou para ele, o velho barco de pesca desafiando as correntes enfurecidas.
Uma rajada de vento repentina golpeou a vela vermelha e amarela, concretizando a profecia de Findlay. O corao de Catherine bateu acelerado ao ver o piloto ser 
atirado para fora do veleiro e tentar nadar contra a corrente.
-  Jogue um cabo para ele - instruiu Findlay. - Vou tentar chegar mais perto. Ser terrvel se todos ns cairmos naquela corrente!
Findlay aproximou o barco de pesca da corrente, e o salva-vidas atirado por Catherine flutuou at o homem. Por um instante, pensou que ele no tivesse visto e, quando 
estava para atirar outro, Findlay interveio.
- Pode deixar. Ele conseguiu pegar o salva-vidas.
O homem chegou ao barco quase sem ar. Findlay virou rapidamente o
barco para Falia.
- Teve sorte, amigo! Aquelas correntes so morte na certa!  novo por aqui, no ? - disse para o novo passageiro.
- Parece bvio, no'?    - respondeu o homem,     sorrindo desajeitadamente para Catherine.
Ela o examinou por alguns momentos e o achou bonito e atraente. Frvolo, mas engraado, pensou, ouvindo-o explicar que estava hospedado na casa do irmo em Lerwick 
e que decidiu passear de veleiro enquanto o irmo e a cunhada estavam fora.
O vento tinha voltado a soprar forte.
- No vamos poder lev-lo de volta para Lerwick - desculpou-se Catherine. - Como se chama mesmo?
- Tim Fielding. Mas no se preocupe com isso. Alan, meu irmo; provavelmente mandar um helicptero atrs de mim.
Ele falava com a segurana de um homem muito rico, Findlay olhou-o por debaixo das sobrancelhas.
- Nada chegar a Falia, com este tempo.
- Ele no  nada otimista, no? - Tim comentou para Catherine. - S quero ver o que o pessoal l em Londres vai achar dessa histria! - Olhou para ela  atentamente. 
Pela primeira  vez  exprimiu  uma franca aprovao. - Voc  uma sereia, no ? Oh, no, no h nenhum sinal de rabo...
- No devia ter sado com o veleiro sozinho por essas guas.  J imaginou que, se por acaso no estivssemos por aqui,  teria morrido afogado?
- Da prxima vez no vou repetir meu erro, senhorita - concordou ele, brincando.
Tim parecia no levar nada muito a srio. Era brincalho e bem-humorado o tempo inteiro. Mais tarde, ao relatar os acontecimentos da tarde para os outros, fugiu 
das perguntas de Brett sobre as correntes e contou tudo como se fosse um filme de aventura e no um acidente srio. Flertou tanto com Catherine quanto com Fiona.
Principalmente com Fiona pensou Catherine, talvez por que visse em Brett um rival digno de enfrentar. Tim era do tipo que devia adorar um desafio.
Tornou a mencionar o irmo em Lerwick e pediu para telefonar para ele, relatando a perda do veleiro como se tivesse perdido um simples brinquedo.
- O Alan vai me comer vivo - comentou depois de desligar. - Disse que vai mandar um helicptero me pegar amanh cedo e exigiu que eu voltasse para Londres. Disse 
que estou me arriscando muito por aqui.
- Assumiu um ar de inocncia ferida. - Essa  uma das desvantagens de trabalhar para a firma da famlia. Meu irmo mais velho  a prpria encarnao do chefe.
Tim havia contado que o irmo dirigia uma empresa area que percorria as ilhas e as plataformas. Catherine, observando sua maneira de gesticular e de falar, soube 
que jamais teria coragem de se entregar quele rapaz atraente mas tolo,
-  Que  que vocs fazem de noite por aqui? - perguntou ele.
-  Nada - respondeu Magnus secamente.
Catherine percebeu que o irmo no havia simpatizado com Tim. Cime de Fiona? Mas por que no tinha de Brett?
Preparou a cama do visitante no quarto de Tex. Devido ao mau tempo, Brett tinha enviado telegramas aos rapazes avisando para no tentarem voltar para Falia antes 
que o tempo melhorasse.
- Para onde um homem leva sua namorada quando quer dizer coisas bonitas no ouvido dela? - insistiu Tim com Magnos, olhando Catherine fixamente.
Magnus no respondeu. Catherine surpreendeu o olhar irritado de Brett. Naturalmente seria um absurdo ele achar que ela estava cada por aquele rapazote! Por outro 
lado, por que no poderia estar? Provavelmente Brett pensava que ela era o tipo de mulher que ia para a cama com qualquer homem!
Desde que tinham voltado da plataforma, Catherine no dormia direito e, particularmente naquela noite, o uivo do vento no deixava o sono chegar. Ao acordar pela 
terceira vez durante a noite, olhou para o despertador e suspirou. Duas horas. Sentiu a garganta seca. Levantou, vestiu o roupo de flanela e desceu para a cozinha.
Caminhou devagar e silenciosamente para no despertar ningum e voltou para o quarto com uma caneca de ch quente.
S quando chegou ao ltimo degrau foi que percebeu a figura vestida de pijama, parada em p como se a esperasse.
- Sou eu - disse Tim. - Estava indo para o banheiro e me perdi.
-  no fim do corredor - respondeu Catherine, incrdula.
- Voc fica muito atraente com esse roupo - murmurou, sem se mover para lhe dar passagem. - Seu cabelo  natural?
- Pare com isso! - alertou-o. --No gosto dessas brincadeiras...
- Quem disse que estou brincando?
Tim passou um brao em tomo da cintura de Catherine, decidido a no deix-la escapar.
- S largo voc depois que me der um beijo - prometeu. - Estou com vontade de experimentar o gostinho da sua boca desde que a vi l no barco.
- Tim, no tenho a menor inteno de beijar voc.
- Um beijinho s.
- Por favor, se no me soltar sou capaz de fazer um escndalo e acordar todo mundo. Voc vai ficar numa situao muito embaraosa.
Tim riu das palavras dela, os olhos brilhando, a mo acariciando-lhe o brao.
- No pode dar um beijinho s?
- Se no me deixar em paz, vou jogar essa caneca de ch quente em cima de voc! - ameaou. - Estou falando srio, Tim!
- Est ?
Tim aproximou o rosto para beij-la e Catherine ergueu o brao decidida a fazer o que prometeu. De repente, um facho de luz iluminou o patamar. Era Brett que tinha 
sado do quarto para o corredor!
-  A no ser que pretendam acordar a casa inteira, aconselho-os a procurar um lugar mais privativo! - comentou, o olhar fixo no rosto de Catherine, que corou imediatamente.
Perdendo totalmente a segurana e o encanto, Tim soltou-a.
- Fala por experincia prpria? - ela perguntou, irnica.
- No a experincia que voc est pensando.
- Nossa! - exclamou Tim, depois que Brett fechou a porta atrs de si. - E eu que pensei que meu irmo  que era duro!
Duas lgrimas rolaram pelo rosto de Catherine.
- Ei, que  isso? No aconteceu nada de grave! Bom, eu quero que voc seja feliz! Pelo jeito, esse tal de Brett Simons  um osso duro de roer!
Como havia prometido, o irmo de Tim chegou logo de manh e, francamente irritado, recusou o caf que Catherine lhe ofereceu.
- Desculpe termos dado trabalho para vocs -  disse a Magnus. - Foi sorte o pescador estar por perto e salvar o Tim. Eu tinha avisado para ele no sair sozinho com 
o veleiro. Qualquer pessoa com um pouco de bom senso desconfiaria que essas guas so perigosas!
Antes de ir embora, Tim insistiu para que Catherine o beijasse.
-  Sujeitinho   idiota!   -  comentou   Magnus,   quando   o   helicptero decolou,  -  Ele  parece ter passado perto da morte  sem  sequer t-la notado!
-  Falei com o irmo dele a respeito da festa de Lerwick, hoje  noite. Ele vai mandar um helicptero nos buscar no fim da tarde e nos trar de volta depois. Tudo 
bem? - Brett perguntou.
- Por mim, sim - confirmou Magnus.
-  Se vocs no se importam - disse Catherine. sentindo o olhar de Brett sobre ela -, este ano eu no vou.
Evitou encar-lo. Brett que pensasse o que quisesse. No queria sofrer vendo ele e Fiona juntos.
- Alis, decidi que vou para Londres - Catherine acrescentou, para surpresa de Magnus. - Pretendo retomar o curso. Mas ainda no sei que dia. Preciso pensar sobre 
isso.


                                    CAPTULO IX


O sol descia por detrs das nuvens pesadas, tingindo-as de vermelho e mergulhava lentamente no oceano. Catherine admirava, emocionada, apesar de j ter visto aquele 
fenmeno maravilhoso muitas e muitas vezes. Estavam no helicptero, a caminho de Lerwick.
- O pr-do-sol aqui no norte  absolutamente singular - comentou
Ela no respondeu. Continuava magoadssima com o que Brett tinha dito naquela madrugada e estava inconformada por ter sido quase forada a ir para Lerwick. Seu lugar 
era na casa de Falia, e estaria l se Brett no tivesse insistido exageradamente para que os acompanhasse.
- Por que quer que eu v? - ela havia perguntado. - Para Magnus no se transformar num peso para voc e Fiona? Um  pouco dois  bom e trs  demais? Por que no 
conta tudo para ele? Ou tem medo de que ele desista do terminal?
-  Voc vai conosco, nem que eu precise arrast-la pelos cabelos! Teria batido o p e desafiado Brett, mas ele disse a Magnus que no iria sem ela. Ento, quando 
Magnus pediu-lhe tambm para ir, no soube recusar.
- Sei como se sente, Cat. Mas venha assim mesmo. No estrague a alegria da gente!
-  Est bem, Magnus. Se voc pode fazer isso, por que no eu? Duvidava,  porm, que suportasse at o final o tipo de tortura que Magnus lhe sugeria.
O sol desceu finalmente e desapareceu por debaixo das nuvens. Catherine cortou as lembranas, atenta ao presente que se desenrolava e curiosa com o futuro.
- Primeiro o hotel, depois o jantar - sugeriu Brett, abrindo a porta do carro de aluguel para Catherine e Fiona entrarem. - imagino que as jovens vo querer refrescar 
o corpo com um banho - disse, olhando para trs, enquanto apertava o cinto de segurana.
Catherine fez uma careta, pois no tinha levado nenhuma roupa. Todas as festas da regio eram feitas essencialmente ao ar livre, at no inverno. Corria-se dentro 
das casas, mas a folia era nas ruas. Por isso no imaginou que fosse precisar de outras roupas. Usava uma cala de veludo preto, bem justa e um suter. Trazia na 
bolsa apenas as peas intimas e uma jaqueta de veludo, igual a cala.
- Chegamos - disse Brett.
Catherine viu a fachada do hotel e voltou-se surpreendida para Brett, que saa do carro.
- Eu escolhi este hotel porque j me hospedei nele - Brett comentou, enquanto tirava a pequena bagagem do porta-malas. - Eles tm um servio especial,.
-  Sim,    ele    pertence   a   uma   famlia   -   interrompeu   Magnus, desconhecendo o verdadeiro sentido das palavras de Brett. - A gente se sente em casa.
-  Foi disso que me lembrei - concordou Brett, lanando um olhar sugestivo  para  Catherine.   -   Quando   vim.   estavam  to   lotados  que precisei  dividir 
meu quarto,  e  havia  uma  nica  cama  de  solteiro - brincou.
Catherine ficou gelada. Olhou para Magnus. perguntando-se se o irmo tinha adivinhado o que Brett quis dizer. Mas no era isso que mais a assustava! Por certo, o 
hotel estaria cheio de novo... Mas quem dividiria o quarto com quem?
- Alguma coisa errada, Catherine? - perguntou Brett.
- No, na verdade. Estava apenas me lembrando de uma experincia desagradvel. Uma coisa que desejaria esquecer para sempre.
- Ser que foi to ruim assim? -  zombou.  - Magnus,  que tal darmos s garotas o privilgio de escolher os quartos?
A expresso de Fiona no demonstrava se o comentrio a tinha deixado aliviada ou desapontada, mas Catherine percebeu que ficou absolutamente desapontada,   os   
olhos   apagados,   como   se   soubesse   que   o   amor escapava-lhe pelos dedos e dificilmente retornaria.
Os quartos era muito parecidos um com o outro. Brett tinha reservado uma mesa num restaurante. Comeriam um pouco s pressas, para no perder as festividades. Enquanto 
esperava Fiona sair do banheiro, Catherine se olhou no espelho. O ar puro e saudvel das ilhas Shetland tinha-lhe dado uma cor que no conhecera em Londres, mas 
os olhos pareciam mergulhar em sombras de tristeza. Aos vinte e dois anos, sentia-se uma verdadeira mulher e nunca mais poderia esquecer a fora do desejo sexual.
-  O banheiro  todo seu - anunciou Fiona, abrindo a porta.
As duas andavam constrangidas como nunca. Fiona sabia dos seus sentimentos em relao a Brett?
Catherine tomou um banho rpido e voltou correndo para o quarto. Fiona vestiu uma saia e uma camisa de seda. Catherine escovou bem o cabelo e passou um batom.
- Voc est bonita - disse Fiona, observando Caherine. - Voc e Magnus tm uma cor linda de cabelo. Quando estou em Edimburgo e vejo um loiro, no meio de tantos 
ruivos, lembro automaticamente dele. - Fiona enrubesceu, mordendo o lbio inferior, como quem se censura por deixar escapar um segredo. - Podemos descer? - perguntou.
Sem dizer nada, abriu a porta do quarto. Magnus e Brett estavam passando peio corredor. Brett vestia uma cala preta e camisa xadrez e trazia a jaqueta de couro 
atirada casualmente sobre o ombro.
-  Divirtam-se! -exclamou, alegremente.
Catherine olhou com hesitao para o irmo. Vestia-se quase como Brett, mas nos olhos dele no havia alegria, nem a fora nem a aura de sensualidade do amigo.
O restaurante no ficava muito longe do hotel e eles decidiram ir a p. Chegaram friorentos e foram diretamente para o pequeno bar, onde o garom os recebeu com 
conhaque. O salo estava cheio de homens da indstria de petrleo, alegres e ruidosos.
Sentaram-se e todos concordaram em pedir lagostas como primeiro prato. Catherine fez um aceno para o garom.
-  Vinho, por favor.
-  No v beber demais - zombou Brett, vendo o copo de vinho na mo dela.
Como prato principal, Catherine escolheu galinha de Kiev. Estava deliciosa, mas mal a tocou. Das ruas, ouvia-se gritos e vozes das pessoas em festa.
- O que est acontecendo, afinal? - perguntou Brett, tomando caf.
- Na essncia, essa festa tem origem vikings - explicou Magnus -, e  realizada em Lerwick h centenas de anos. Mas em 1880, um homem daqui, Haldane Burgess, desenvolveu 
a festa tal como  hoje, baseada nos antigos   rituais   de   renovao   peio   fogo.   Na   poca,   rolavam   barris enxameados pelas ruas, mas hoje constroem 
um barco muito parecido com os dos vikings e ateiam fogo nele.
- Como   o   barco   funeral?   --   interrompeu   Brett,   demonstrando conhecer alguma coisa sobre as tradies.
-~ Para os antigos, o fogo significava o renascimento da vida e por isso a festa de hoje se chama Vida Nova, ou Renascimento. Os homens vestem  fantasias  e  saem 
pelas ruas,  passando o dia  inteiro  visitando comunidades, escolas, hospitais e assim por diante. A noite fazem uma procisso.  linda, bastante estranha tambm, 
e depois arrastam o barco para as guas e o queimam. Mais tarde parece que o inferno se instaura aqui na terra - completou sorrindo. - Bom, a gente sempre ouve dizer 
que os escoceses enchem a cara e ningum os segura. Pois espere para ver os habitantes das Shetland! Trabalham muito e por isso divertem-se muito tambm. Teoricamente, 
cada grupo com fantasias deve visitar mais ou menos meia dzia de casas de Lerwick, divertindo as pessoas, e s depois dessa tarefa terminada  que podem voltar 
para suas casas.
-  Isso quer dizer que a gente ter que ficar acordado a noite toda para ver o final da festa - comentou Brett.
Magnus gargalhou.
-  lembra-se, Cat, do primeiro ano que a gente veio  festa?
Como poderia ter esquecido? Foi um ano antes da morte dos pais, Catherine pensou.
-  Eu teimei em comer duas caixas de frutas cristalizadas e quase tive indigesto - ela disse, nostlgica,
-   mesmo. Eu tinha me esquecido disso.
- Eu ficaria surpresa se voc se lembrasse. Naquela noite s tinha olhos para a garota que levou para casa. Como ela se chamava? Miranda...
-  Ah, sim, Miranda. Mas veja, tinha esquecido dela tambm. Uma boa garota - Magnus acrescentou, rindo.
A noite estava fresca, o vento fraco. Com a jaqueta, Catherine se sentia muito confortvel. Os folies j estavam nas ruas, num clima de frias. O cheiro de cachorro-quente 
pairava sobre toda a praa.
-  Por aqui - disse Magnus,  liderando-os.  - Conheo um lugar privilegiado para assistirmos a celebrao.
As ruas estavam to apinhadas de gente que era impossvel caminharem juntos. Catherine tentou adiantar o passo para ficar ao lado de Magnus, mas Brett pegou seu 
brao.
-  Magnus! - gritou -, acho melhor a gente andar aos pares. Magnus parou e Catherine tentou se esquivar para juntar-se ao irmo.
-  Fique aqui! - Brett ordenou,
Fiona olhou espantada para Brett, no vendo outra sada seno andar com Magnus.
-  Por  que   est   fazendo   isso?   -  perguntou   Catherine,   perdendo Magnus e Fiona de vista.
-  Talvez porque queira lhes dar a chance de procurar aquilo que perderam...
Por um momento. Catherine no quis acreditar nas palavras dele.
- J entendi! - murmurou entre dentes. - Mas no precisava se auto-sacrificar.  Magnus j est mais do que preparado para permitir a construo do terminal. J conversou 
com Fiona? Ela no tem nada a ganhar, tem?
- Catherine, quando vai aprender? - ele perguntou, furioso.
- Aprender o qu?
- Voc  desprezvel!
- Eu, desprezvel? E voc? Primeiro, rouba a namorada de Magnus, depois a manda de volta, como se um fosse um objeto descartvel...
- Fiona...
- No sei o que ela viu em voc - cortou.  Voc  um sujeito arrogante... inescrupuloso... insensvel...
- Que mais, ou j terminou?
Catherine instintivamente tinha-se tornado altiva, olhando Brett cara a cara, sem nenhum temor.
Foi ento que ele a ergueu no ar, seus olhos colocados no mesmo planos que os dele.
-  Ponha-me no cho.
-  E perder a  oportunidade de provar-lhe o quanto   desprezvel? Fiona e Magnus esto nos observando - acrescentou, com um sorriso sarcstico, - A no ser que 
Fiona fique no seu lugar,  melhor caminhar ao meu lado, Catherine Peterson.
- Voc  que  desprezvel! -- exclamou Catherine.
- Posso ser desprezvel, mas voc me quer! - replicou Brett. - E se no estivssemos no meio desta multido, ia lhe mostrar o quanto voc me quer - Bejou-a com 
ardor e deslizou as mos pelo corpo dela, desafiando-a a negar a resposta instintiva.                -
Incapaz de suportar o desafio dele, Catherine desviou o rosto,
- Estou cansada de ouvir os seus insultos - ele disse com suavidade.
- E tempo de compreender que no basta agir como voc age, sem coragem para encarar as conseqncias.
As pernas dela enfraqueceram, como se derretessem por causa do calor que sentia dentro do corpo. No fossem os braos de Brett, cairia ali mesmo no cho.
-  Que conseqncias?
- Onde est soa bravura, Catherine? -- ele provocou.
A multido comeou a mover-se em bloco, acompanhando a procisso.
- Venha comigo.
- Para onde quer me levar?
- Pode imaginar? Como sou desprezvel, fiquei sem mulher e agora preciso de uma para substitu-la...
- Pois ento saia atrs de uma outra qualquer! - protestou, irritada.
- No vai me levar fora...
- Est esquecendo a festa, Catherine? Ns seremos confundidos com os folies. Eu poderia andar carregando voc nos braos e ningum nos notaria. Ningum poderia 
me impedir! No, esta  a soluo ideal: olho por olho. dente por dente, uma mulher por uma mulher... A no ser que queira que eu roube Fiona de Magnus de novo. 
Depois, Cat, voc no me dar nada alm daquilo que deu a outro... Sabe, Tim para mim no era o tipo de amante que voc gostaria de ter.,.
- Foi uma surpresa, no foi? - ela provocou.  Mas a arrogncia que queria mostrar a Brett no tinha nada a ver com o que sentia em seu corao.
Tremendo, numa mistura de medo e dor, procurou resistir ao perceber que ele a estava levando para o hotel. A certa altura, Brett afrouxou a mo. Catherine suspirou 
profundamente e, criando coragem para um rpido movimento se livrou, correi! e virou uma esquina. Assustada, percebeu que corria de encontro a dois folies embriagados.
Num segundo, eles a agarraram. Talvez no quisessem fazer-lhe mal, mas, enojada, se debateu num desespero alucinante. Foi ento que botou os olhos no homem que vinha 
em seu socorro.
Os dois folies, provavelmente para evitar encrenca, a largaram e se afastaram gargalhando.
- Voc  brilhante! - Brett exclamou, zombando dela.
- Brett...
- Vamos j para o hotel!
Sua ltima esperana era que algum os interpelasse na recepo do hotel, mas, para sua decepo, o balco estava completamente vazio. Todos haviam sado para a 
rua.
Brett levou-a para um quarto com duas camas de solteiro, sem nenhuma semelhana com aquele que partilharam na primeira noite. No entanto, as lembranas estavam vivas.
- Brett. por favor, no faa isso - pediu, ao ver que ele trancava a porta. - Desculpe por t-lo ofendido...
-  Est desculpada, mas isso no basta!
Brett tirou a jaqueta e depois a camisa, jogando-a sobre uma das camas. O peito msculo perturbou Catherine muito mais do que gostaria. Belo, pensou, mas tambm 
mortal! Naquela noite Brett era todo animai, todo fria, e sabia que o que estava para acontecer seria assustador, como uma cicatriz que permaneceria at o final 
da sua vida.
- No fique parada! - ele exigiu. - Ou est esperando que eu v at a tirar sua roupa? E o que quer, Catherine?
- Voc pouco se importa com o que eu quero.
- S me importo com meu desejo,  isso que voc acha? Pois gostaria de ouvir voc me pedir para fazer amor! - ele disse, chegando bem perto dela.
- Nunca!
- No aprende mesmo, no ?
Aproximou-se ainda mais e logo a envolveu com braos fortes e tensos.As mos puxaram o zper da jaqueta, que caiu pouco depois aos ps dela, seguida da cala de 
veludo.
-  A cama  pequena, mas servir aos nossos propsitos. Afinal, no dormiremos juntos! Vamos apenas fazer um acerto de contas. O que  que h? - acrescentou no mesmo 
tom de voz. - Da ltima vez em que a tive nos braos voc disse: que lindo!
- No!
Catherine levou as mos aos ouvidos, mas, sem nenhuma delicadeza, ele tomou a baix-las.
- Pare com isso. Uma mulher com a sua experincia... com o seu apetite...  No entendo como pode ficar embaraada com uma simples palavra! Voc achou Tim lindo?
- Achei!
Atirou-lhe a palavra como se o esbofeteasse, os olhos embaados com lgrimas.
-  E ainda tem o desplante de me criticar!         
Tapou-lhe a boca antes que ela pudesse protestar, pressionando num - misto, de agressividade e sensualidade. Ela estava chorando, ele a fez deitar assim mesmo, tirando 
sua blusa e o suti.
- To perfeitos...
Ele baixou o rosto e.Catherine sentiu o desejo pulsar dentro do peito. Percebeu que dali a um segundo no ia conseguir mais se controlar. As j mos  dele  explorando 
seu  corpo  tinham  a  ao devastadora  de  uma tempestade.
- No, Catherine - disse ele, erguendo a cabea e abandonando as carcias. - No vai ser bom... Quero dizer, no conseguiria me aproveitar de voc, contra a sua 
vontade.
- Cinco minutos atrs voc disse que me faria pedir para fazer amor com voc - lembrou-o. - Por que mudou to de repente? Ou se sente incapaz de me excitar?
- Oh, no, eu posso excit-la... Mas agora estou pensando em coisas mais importantes. Por exemplo: por que diabo eu deveria me preocupar com   uma   mulher   to 
tola   quanto   voc?   Embora   devesse   faz-lo, simplesmente para provar que posso...
Enquanto ele falava, os lbios roavam-lhe os bicos dos seios, tornando a despertar os sentidos que ela buscava adormecer. No era o que queria, porm. Queria ternura... 
queria amor!
Brett mexeu-se, colocando o corpo sobre o dela e forando-a a abrir as pernas. Catherine tenciono o corpo, numa recusa decidida. O pnico comeava a tomar o lugar 
do desejo.
-  Por favor,  Brett,  no me force a fazer isso...  No estou... No sou...
-  No  o que? - zombou, tornando-lhe o rosto entre as mos. - Est preparada para a mais excitante das viagens que dois seres humanos podem fazer juntos?
-  No posso... Brett, por que mandou Fiona de volta para Magnus? Ele corre o risco de voltara se fechar e...
-  No vou voltar atrs... Nenhum de ns vai querer voltar atrs. - Ele a acariciava, mas ela no conseguia se soltar. Estava muito tensa, pensando no que aconteceria 
com ela, depois que Brett a abandonasse como uma cadeira velha. -- No me olhe distante desse jeito, Catherine! Voc reviveu uma vez nos meus braos e tornar a 
reviver! Voc tem que
conseguir!
Ele a beijou de novo. Dessa vez com delicadeza, com sensualidade, os braos pressionando o corpo de Catherine. Ela murmurou, num protesto, mas ele continuou beijando-lhe 
o pescoo, os seios. Aos poucos, ela foi se abandonando e o.desejo despertou novamente. Quando tocou o corpo dele, Brett murmurou algumas palavras incompreensveis, 
guiando-lhe as mos para o cinto da cala, pedindo que seus dedos inexperientes os libertassem da ltima barreira a separar seus corpos.
Catherine suava. Desceu as mos tremula para o cinto de Brett. Naquela hora, achou que tudo atrapalhava: no conseguia desabotoar a fivela, o cinto no abria. Que 
aflio, pra que tanta roupa, meu Deus! Foi tomada por um delrio indescritvel quando afinal o corpo nu de Brett tocou o seu. Estavam prontos para aposse. Mais 
um instante...
Um suor frio escorria-lhe pelo corpo nu. O que estava fazendo? Os olhos arregalados de espanto, Catherine buscou o rosto de Brett para obter uma resposta. No havia 
nenhuma resposta! Finalmente o empurrou.
-  No.:, no, Brett!
Brett rolou o corpo para o lado.
- Deus do cu! - exclamou. - Voc realmente sabe como acabar com um homem! Existe um nome para mulheres que se comportam como voc! E no me venha com histrias! 
Eu a vi com Tim... Agora saia daqui... Saia antes que eu esquea de que sou um homem, no um. animal.
Era tarde quando Fiona voltou, mas Catherine, no conseguindo dormir, viu-a entrar silenciosamente no quarto. Como podia ser feliz com Brett? Um pensamento repentino 
deixou-a curiosa. Teria Brett deixado o hotel para encontrar-se com os dois? Tentando arrebatar Fiona de Magnus mais uma vez? Teria Fiona conhecido a percia selvagem 
do toque de Brett?


                                    CAPITULO X


-  E voc vai voltar para ser dama de honra de Fiona? - perguntou Magnus.
Estavam na biblioteca. Fiona tinha acabado de sair. Ela e Magnus haviam reatado o romance na festa de Lerwick e desde ento se tomaram inseparveis. Iam casar logo.
Catherine no entendia o que exatamente havia ocorrido entre eles. Talvez Fiona, mais sensata do que ela mesma, tivesse percebido que Brett no era o tipo de homem 
feito para o casamento. Na verdade, pensou, estava sendo injusta. Fiona obviamente estava perdidamente apaixonada por Magnus.
-  Est pensando mesmo em partir no final da semana? - insistiu Magnus.
-  Estou, sim. - Pelo menos, era o que sentia necessidade de fazer. Brett continuava em Falia e ela no ia suportar ficar em contato com ele muito tempo mais.  A 
presena dele a perturbava e lhe roubava toda a autoconfiana e o autocontrole.
-  Continua apaixonada, no ? - Magnus observou. - No queria repetir o velho chavo de que o tempo cura tudo, mas, isso  verdade, Cat. Di. mas passa.
Magnus estava para descer at a enseada, onde Brett trabalhava. Catherine decidiu fazer um piquenique. Arrumou um lanche e subiu a colina que ficava atrs da casa.
No   alto,   a  colina   formava   um   imenso   plat   onde   os   primeiros habitantes de Falia tinham construdo seu castelo com as pedras da regio.
Mas ela estava alheia  beleza do lugar.
S conseguia pensar no ltimo encontro com Brett, Deitada sobre montes de turfa ficou olhando o mar que se perdia num horizonte misturado ao cu. e. sem perceber, 
seus olhos foram fechando e adormeceu.
A nvoa que pairava sobre o mar aumentou pouco a pouco, e, de repente, como se pressentindo isso. acordou. Sentou, um pouco alarmada, sentindo frio, irritada consigo 
mesma por ter sido descuidada.
A bruma alcanou a colina e de um momento para o outro Catherine no enxergava seno o prprio corpo. O castelo, que estava to perto, parecia ter sumido misteriosamente. 
Conhecia a ilha como a palma da mo, mas agora se sentia perdida numa terra estranha. Um sexto sentido lhe dizia, aps ter dado uns passos, que estava a beira do 
plat e que diante s havia o vazio! L embaixo o mar se agitava em ondas furiosas que se chocavam contra as rochas!
Tentou se concentrar para reproduzir mentalmente o espao que tinha em torno, Ningum sabia que estava a! Magnus e Brett deviam ter voltado para casa quela hora, 
mas mesmo que sentissem sua falta, no teriam a menor idia de onde poderia estar.
Tinha ignorado as regras mais elementares da sobrevivncia, pensou, inconformada com  tolice que havia feito. Falia no era muito grande, mas levaria horas para 
encontrar o caminho de casa.
Meia hora depois, a bruma no mostrava nenhuma indicao de que levantaria. Com a roupa mida, j cansada de esperar, Catherine decidiu que, tomando as devidas cautelas, 
com sorte poderia encontrar o caminho para descer. Deu com uma trilha que, a julgar pelo estado, no era muito utilizada. Em breve o dia seria substitudo peia noite, 
pois a bruma se tomara cada vez mais densa. A perspectiva de andar no escuro a deixou ainda mais nervosa, principalmente porque sabia que a encosta da colina era 
demasiado   inclinada,   com   depresses   no  terreno  que   formavam verdadeiros buracos, profundos o suficiente para no conseguir sair deles sozinha.
Mas no tinha muita escolha. Passar uma noite ali significava, na melhor das hipteses, uma pneumonia. Tateando cautelosamente o caminho para baixo, pediu a Deus 
que lhe mandasse Magnus. De repente, escorregou mas conseguiu se equilibrar e no se machucar. Ouviu barulho de gua corrente, o que talvez indicasse perigo  vista. 
Achou que devia estar em frente ao riacho que dava no lago.
A primeira vez que ouviu o dbil eco de seu nome, pensou estar imaginando coisas. Tentou enxergar atravs da bruma.
Na segunda vez, teve certeza: era o seu nome mesmo que algum estava chamando, mais prximo agora. Com o corao batendo acelerado, levou as mos ao peito e respondeu.
Momento depois, ouviu um barulho seco que depois reconheceu como as batidas das patas de Russet nas guas do regato.
Em seguida, Magnus e Findlay surgiram de dentro da bruma, com uma lanterna na mo. Magnus abraou o corpo tremulo e frio de Catherine, que deitou a cabea no ombro 
dele.
-  No diga nada,  Magnus! J me culpei  e castiguei bastante pela tolice que fiz! Apenas queria dizer que dormi...
Mas Magnus, ao contrrio do que esperava, no estava irritado.
-  No se preocupe com isso - disse ele. - Quando percebi que estava demorando demais, imaginei que tinha vindo para o castelo.
Uma outra figura emergiu da bruma. Era Brett. Ao v-lo, o corao de Catherine bateu descompassadamente. Os cabelos dele estavam escorridos, com a umidade o que 
o tornava estranhamento belo. Imaginou como seria delicioso poder se atirar nos braos dele, assim como fez com Magnus.
- Voc foi esperta! - comentou Magnus. Catherine, porm, s dava ateno a Brett.
- Nem tanto - respondeu automaticamente.
- Esqueceu de que foi aqui que a encontrei quando papai e mame morreram? - Magnus continuava.  - Por isso vim direto.  No perdi tempo procurando voc.
Brett no tirou os olhos de cima dela. Catherine ficou arrasada. No via a hora de poder partir de Falia, mas no fundo sofria.
- Vamos para casa - disse Magnus, tirando a jaqueta e colocando sobre os ombros dela. - Est molhada demais!
O toque do irmo despertou a lembrana dos toques de Brett, ao enxug-la com a enorme toalha felpuda, os dois sozinhos no quarto dele, o desejo varrendo o bom senso 
e toda a precauo.
A volta foi confusa. Russet saltava e latia em tomo dela, Findlay contava  casos  de  pessoas  que  ficaram  presas  pela  bruma  
Magnus cercava-a de cuidados. J em casa, ele a sentou na cadeira da cozinha em frente ao fogo ardente da lareira.
- Gostaria    que    Fiona    estivesse    aqui    -    comentou    Magnus, observando o rosto tristonho de Catherine.
-  Oh, Magnus, no se preocupe comigo. Estou me sentindo muito bem,  acredite.   Um  banho  quente  e  um  bom  sono e  amanh estarei novinha em folha, de novo!
Brett at  aquele  momento,  no tinha dito nenhuma palavra.  Estava encostado no   batente  da   porta   da   cozinha,   bebendo   ch,   o   cabelo comeando a 
enrolar  medida que ia secando.  Parecia menos austero, porm, mais acessvel, e por um instante Catherine sentiu uma vontade incontrolvel de levantar e abra-lo, 
buscando o calor do corpo dele. Mas lutou contra esse desejo, lembrando que aquele homem por quem se derretia de paixo era rude e indiferente em relao aos sentimentos 
dos outros.
- Ento vamos, que est na hora de dormir - disse Magnus. pegando a xcara de ch de suas mos e colocando-a sobre a mesa. - E no se preocupe em levantar cedo amanh. 
Eu e Brett iremos para Aberdeen. Vamos conversar a respeito da base petrolfera.
- Quando vo voltar?
- Ainda no sabemos - respondeu Magnus.
- Eu, como tenho outros negcios para resolver, talvez passe umas semanas fora. um pouco mais. - Brett falou pela primeira vez.
- Estamos nos vendo pela ltima vez, ento?
Ela ia partir para Londres naquele fim de semana, mas ainda assim foi apanhada de surpresa por aquela noticia de Brett.
- Acho que sim - Brett respondeu num tom casual, como se no desse importncia ao fato. - Mas, naturalmente, volto para o casamento de Magnus.
Quando ele voltasse, ela j estaria em Londres, pensou, um medo estranho querendo dominar seu corpo inteiro. Queria pedir para ele ficar, mas o orgulho a impedia. 
Um orgulho estpido e inconseqente que enchia seus olhos de lgrimas.
Acordou antes dele e ouviu-os arrumar as coisas, aguardando com ansiedade que Brett a procurasse para se despedir. Mas quando a porta abriu.foi Magnus que entrou.
-  Como est?
- Bem, obrigada.  Estou preparada para sair da cama e comear a trabalhar. Tambm preciso arrumar minhas malas.
- Espere-me  voltar.  Telefono para avisar quando chego.  Enquanto isso descanse. Leia alguns livros que trouxe e fique deitadnha na cama, est bom?
Ela balanou a cabea afirmativamente, cansada demais para argumentar. Pela primeira vez descobria que o amor podia fazer uma pessoa adoecer.
Eles partiram e Catherine se viu absolutamente sozinha. Leu um pouco, mas logo abandonou o livro. Seus pensamentos a impediam de concentrar sua ateno.
Brett ocupava sua mente, excluindo ludo o mais. No importava que ele a desprezava, que a tinha usado para conseguir a construo da base! Ela o amava acima de tudo!
A noite chegou e Magnus no telefonou. Comeou a sentir fome. Estava vestindo o roupo de seda quando ouviu o rudo familiar do motor do helicptero.
-   Magnus!   -  disse   em   voz  alta.   Por  certo,   o   irmo   havia conseguido voltar antes do previsto e achou desnecessrio telefonar.
Sentou na cama, esperando. Ouviu passos na escada.
- Magnus! - chamou, imaginando que ele no entraria pensando que estava dormindo.
- Pode entrar,  Magnus,  estou  acordada - repetiu.  - Venha  me contar como foram as coisas.
A porta se abriu e a expectativa morreu no seu rosto.
-- Brett! - sussurrou, a voz rouca, o corao palpitando, enquanto contemplava a figura parada  porta.
Ele parecia mais alto, naquele terno escuro, e ainda mais distante do que sempre foi.
- O que.:, o que est fazendo aqui em Falia? - Foi a nica coisa que ela conseguiu balbuciar.
- Lembrei que ainda tinha coisas para resolver por aqui.
Catherine no ousou perguntar quais eram aquelas coisas. A presena dele lhe despertava antigas sensaes...
- Voc   parece   plida   -   ele   comentou   abruptamente.   - Comeu alguma coisa hoje?
Ela abanou a cabea negativamente, incapaz de falar.
-  Fique a que vou buscar alguma coisa para voc comer.
-  No. no! Posso me levantar.
-  De jeito nenhum. Voc est fraca e abatida. Que gostaria de comer - insistiu.
- O que  voc quiser.  - Ela no estava mesmo com vontade de comer. Mas no se recusaria a lhe fazer companhia!
-- Eu j comi - respondeu ele, secamente.
- Onde est Magnus? -ela perguntou,
-- Depois da reunio,  Magnus decidiu ir para Edimburgo encontrar Fiona.
- E como foi a reunio?
No estava interessada no  assumo.  Procurava simplesmente  retardar uma aproximao que, temia, seria inevitvel!
-  Do seu ou do meu ponto vista'.' - rebateu ele- chegando perto da  cama e pegando o livro que ela havia comeado a ler.
-  uma histria de amor? - perguntou ele, folheando o livro.
- Sim...
-  E tem final feliz?
-  No  sei,   no  li   inteiro...   Mas imagino  que  sim!  Para  falar  a   ' verdade,   nem   saberia   contar  o   que   foi   que   li.   No conseguia   me 
concentrar.
- Em que estava pensando?
- Voc ainda no me contou como foi a reunio.
Sua melhor defesa ainda era evitar o assunto sobre o qual ambos estavam ansiosos para falar. Como ia revelar que s pensava nele. nele, nele?
- Ah, sim, a reunio! Falamos sobre a base e dependemos da aprovao de Magnus. E da sua, naturalmente. Existem ainda uns dois pontos que precisam ser acertados. 
Mas pelo menos os convenci de que a enseada serve perfeitamente aos propsitos do projeto. Sabe, tive sorte em vir para Falia...
-  No posso dizer o mesmo...
Breu ergueu as sobrancelhas, mas desta vez sem raiva ou irritao.
-  Sei disso - concordou, sem provoc-la, lanando um olhar para o relgio. - Que tal ovos mexidos e torradas?
-  No se preocupe com a minha alimentao. - Catherine levantou da cama. - Voc deve ter muitas coisas para arrumar. Eu mesma preparo alguma coisa.
- Voc  que no deve se preocupar comigo, Catherine.  Fique a como  uma mocinha obediente,  que eu  vou descer e preparar alguma coisa.
Ele saiu antes que ela. fizesse outra objeo. Mais tarde, ouviu-o assobiar subindo a escada. Nunca o tinha visto daquele modo, bem-humorado e despreocupado. Talvez 
a definio do projeto o tivesse aliviado. Sim, s podia ser isso, pensou.
Quando Brett entrou trazendo a bandeja, ela estava sentada perto da lareira, os cabelos caindo sobre o roupo de seda. Os ovos mexidos e as torradas estavam deliciosos, 
ainda mais acompanhados com ch forte.
-  Estava com mais fome do que pensava - disse ela.
-  Quer  dizer que Magnus  e  Fiona  se casaro em junho? - ele perguntou, de repente.
-  Quer casar no lugar dele? - ela disse, no resistindo a tentao de provoca-la um pouquinho que fosse.
-  No me importaria com um casamento marcado para junho - ele respondeu com um sorriso.
Catherine afastou o prato, sem dizer nada.
- Ch? - Brett ofereceu.
- Sim...
O que queria, porm, era que ele fosse embora e a deixasse sozinha. Brett serviu o ch, passou-lhe a xcara e seus dedos se tocaram. Bastou isso para uma corrente 
eltrica percorrer todo o corpo dela.
- A propsito, Magnus acha que voc est apaixonada por mim.  verdade? - ele comentou de repente, soltando a bomba no ar.
- Claro que no! - respondeu,  fingindo naturalidade,  mas furiosa com o irmo por t-la trado. - Magnus estava brincando com voc!
- Ser?
Durante o silncio que se seguiu, Catherine bebeu o ch nervoso e colocou a xcara na bandeja, que Brett removeu. Depois, j com as mos livres, ele se inclinou 
sobre ela e aprisionou-a com os dois braos.
- S existe uma maneira de eu ter certeza - disse Brett, apertando-a com fora.
Ele a beijou de leve no rosto, na boca, no pescoo, provocando um estremecimento no corpo de Catherine.
-  Brett, pare com isso?
- isso o qu?
Brett deslizou a lngua sobre os lbios de Catherine, e apertou-a mais Evidentemente, podia sentir o tremor que tornava coma dela.
Pare de me atormentar desse jeito, teve vontade de gritar, mas agora  era tarde demais! Tarde demais, admitiu, para negar o amor que sentia!
Brett acariciou a pele macia do colo dela, num movimento circular e sensual,  fazendo-a suspirar.  Ele sabia corno deix-la louca de paixo. Com a pontinha da lngua, 
fazia carinhos na orelha, depois a beijava na boca.  Ora suavemente, ora com incontrolvel  ardor,  depois  voltava a' acariciar a pele do rosto e as orelhas. Catherine 
gemia, como se pedisse desesperadamente a Brett que satisfizesse seu desejo sem demora. Mas ela percebeu que ele no tinha pressa ou ansiedade. Ao contrrio das 
outras vezes. Brett parecia dizer-lhe, com gestos, com a vibrao do corpo, que tinham  todo o tempo do mundo e que no pararia enquanto ela no revelasse a verdade 
que vinha escondendo dele.
Um outro beijo suave fechou sua boca. Ela passou uma das mos pela nuca dele com a outra acariciou de leve o pescoo, Se beijaram com paixo e dentro dela explodiu 
uma onda de desejo que ameaava transbordar pelos poros.
Os dedos de Catherine buscaram, trmulos, desabotoar os botes da camisa que a privava do calor da pele nua.
De repente,   Brett  ergue-a  nos   braos  e   carregou-a  para  a  cama. Impaciente, arrancou a jaqueta e a camisa, abriu o roupo de Catherine e contemplou o 
corpo dela, deslumbrado.
Catherine pediu baixinho que a tocasse de novo. Estendeu a mo, acariciou o peito dele e puxou-o pelo brao. Brett foi deitando por cima dela, lento, excitado. Quando 
seus corpos colaram um no outro, movendo-se numa dana sensual, Catherine pensou que ia explodir por dentro, derramando-se em prazer. Envolveu-o instintivamente 
ainda mais, aprisionou-o com braos e pernas.
Seria tolice continuar negando-se s delcias daquele amor, pensou. Se estiverem preparados para fazer amor que o fizessem naquele momento, pois agora sim conhecia 
o valor daquelas palavras. Amor e sexo finalmente tinham um nico sentido!
Naquele momento de total abandono, ela conseguia compreender finalmente tudo tirando a venda que por muito tempo fechara seus olhos. 
Percebia que Brett reunia delicadeza e paixo, instinto e amor. as coisas que sempre pensara encontrar no homem que um dia viria a amar. Brett era seu amor! Brett 
era seu amante!
Todo seu corpo estremeceu. Apertou Brett contra si, entregando-se as carcias e aos abraos, sem medo das sensaes novas e excitantes que experimentava com aquele 
homem. Obedecendo a um impulso desconhecido, comeou a beijar-lhe o pescoo, o peito e desceu ao estmago, seguindo a trilha de plos que se estreitava como num 
vale... Seus lbios acompanharam a rota dos seus dedos, at que Brett gemeu agitando o corpo, agarrando-a fortemente e cobrindo-a de beijos enlouquecidos. No havia 
lugar para tristezas ou lamentos! Ambos viviam O momento para o qual haviam nascido!
- Brett! - exclamou.
Ele levantou a cabea, procurando os olhos dela na penumbra.
- No me diga que quer parar, por favor!
- No Brett! No quero!
- Eu... Mesmo que quisesse... Oh! Catherine! Catherine!
- Oh. Brett... Eu o amo! Eu o amo!
Catherine tinha os olhos cheios de lgrimas. Mas estava feliz.
- No queria que voc soubesse. Brett, mas eu o amo! Eu...
No suportando mais, afastou-o. Precisava falar, desabafar, contar tudo o que havia sofrido tanto tempo.
- Por acaso tem idia do que estou sentindo? Por acaso sabe o que fez comigo? Voc, com esses olhos magnticos, com esse olhar desdenhoso, com seus cabelos negros, 
com esse corpo que quase me leva  loucura cheia de promessas... Brett, eu quero explicar ludo...
- Chega de argumentos e de explicaes, Catherine.   Basta de mal-entendidos.  Desde a primeira noite, naquele hotel, eu sabia que a amava.   Voc me conquistou 
pela fragilidade, pela delicadeza, mas tambm pela sensualidade...  No foi s isso! Era voc inteira que me deixava louco!  Seu orgulho, sua determinao, sua liberdade 
para agir independente do que eu viesse a pensar de voc...
- Mas no me disse nada...    Voc permitiu que fosse me distanciando...
- Eu tinha certeza de que no iria longe! Quando cheguei em Falia, percebi que em breve sua resistncia se desgastaria... Ento eu poderia convenc-la de que tnhamos 
sido feitos um para o outro.  - naquela noite no quarto de Lerwick, numa cama de solteiro! Voc teve um pesadelo, estava para chorar, e ento eu decidi passar meu 
brao em torno do seu corpo e beij-la. A partir daquele momento, entendi que tinha que ser s minha. A propsito, voc no se importa de casar com um homem metido 
em petrleo?
- Vou me casar com um engenheiro civil. E no tenho mais dios da indstria de petrleo, amor.  O acidente de Magnus  que me deixou desequilibrada, com raiva de 
tudo e todos relacionados com esse mundo. Mas como poderia continuar odiando esses homens, se conheci voc?
Catherine riu. E Brett observou-a, intrigado.
- Do que est rindo?
- Estava me lembrando daquela noite em Lerwick.
- O que  que tem?
- Voc disse que ia me ensinar a fazer amor. 
Fez-se um breve silncio, e ento o desejo iluminou os olhos dos dois.
- Pois ento tente evitar!
Ela o recebeu sem hesitaes, contente de saber que pertencia apenas a ele. E abandonou-se em seus braos agora, sem medos ou desconfianas.



                                              F I M
Antes que o dia amanhea (Northern Sunset)                                              Penny Jordan
Julia no. 210

                                                   Livros Florzinha                                     - 1 -
